terça-feira, 30 de março de 2010

Radiohead - OK Computer (1997)


Vulgarmente, nos dias que correm, ouvimos referências a Radiohead como sendo a «maior» banda da actualidade musical. A mais completa, a mais irreverente, a melhor.
Tudo isto é muito subjectivo, mas a verdade é que a formação liderada por Thom Yorke já tem o seu lugar na história. Hoje são ídolos e influencias, e muito se deve a OK Computer.

Depois de um Pablo Honey de estreia, marcado pelo hino do rock radiofónico «Creep», The Bends mantivera a lógica duma banda de rock britânico dito alternativo. Sem grandes complementos, a banda começava a ganhar visibilidade e em 97 todos esses aspectos tornaram-se essenciais na mudança da sua sonoridade e naquilo que hoje reconhecemos como fantástico.

Um síndrome bem Kurt Cobain ( «Smells Like Teen Spirit») marcou a banda que parecia só ter um tema no curto mas já respeitoso reportório. «Creep» é hoje um momento raro de se ver, e da sua exaustão saiu uma mudança total do rock cru dando lugar a algo mais progressivo e aventureiro.
OK Computer é o ponto de viragem. Kid A, lançado em 2000, tornar-se-ia demasiado confuso para quem saltá-se este incrível marco na musica dos últimos 20 anos.

Um quadro dinâmico, que muda a sua pintura de forma inconstante. Por vezes sente-se um auto-retrato na voz de Thom Yorke que se demonstra um letrista fora do comum. Por outras entramos num abismo colossal de efeitos sonoros consideráveis.
A recepção dum álbum destes não é fácil, os ventos de mudança são visíveis… Radiohead prestes a conquistar o mundo sem dúvida.

Procuravam algo de novo, que marca-se a sua carreira de forma a abalá-la, não caindo no facilitismo de meras sequelas e continuações de álbum para álbum.
A fórmula tinha funcionado anteriormente, e não deram sequer azo ao desgaste.

«Airbag» é um dos temas que faz deste álbum, o meu favorito da banda. O Riff esmagador que dá abertura a este longa-duração assemelha-se ao medonho som da gigantesca chaminé do Titanic em queda… É estrondoso sem assustar ninguém. A voz de Thom Yorke não o permite.
O uso de samples ao nível da percussão, bateria e baixo, é algo subtilmente genial, melhor, só mesmo o registo vocal que se torna hipnótico. O cérebro flutua ao som deste tema.
Consta que o famoso DJ Shadow teve a sua cota de influência ( Endtroducing ) na produção deste tema em concreto. Inevitável será dizer que a evolução está á vista de qualquer um.
Relembrando de certa forma «Just» de forma a não ser aquele choque…

O tema que se segue é um daqueles momentos-chave em toda uma carreira. Um tema mais prolongado do que a banda nos tinha vindo a habituar, deixa para trás o brit-pop de todo e procura algo mais progressivo e de certa forma mais sentido.
«Paranoid Android» é mais do que viciante! Será esta uma procura de algo épico, como por exemplo um «Bohemian Rhapsody» dos Queen aplicado ao final do milénio? Em 1997 certamente não imaginariam o estatuto que viriam a ter nem a forma como iriam abalar toda a indústria discográfica com o álbum In Rainbows (2007), uma década depois…
Sem rodeios, épico ou não, é um tema fantástico. Uma salada de frutas perfeita onde se jogam todo o tipo de sentimentos, de emoções e de rasgos de completa inconsciência – de loucura pura e dura.
Já ouvi por ai ao virar da esquina cibernautica e tropeçando em alguma imprensa especializada, que este OK Computer se revelou de certa forma um neo-Dark Side of the Moon, e eu compreendo perfeitamente o que querem dizer com isto.
Não se trata de números nem de sonoridades concretas, é mesmo o sentimento de busca. De liberdade artística.
Para tal muito contribuiu o facto de este álbum ter sido gravado fora da movimentada cidade e pela própria banda, de forma a garantir uma certa independência musical. Concentração total.

As 4 fases distintas de «Paranoid Android» complementam-se numa fábula autêntica. Daquelas que começam… Era uma vez os Radiohead que faziam boa música. Moral da História? O sucesso mais do que merecido.

"You don't remember, you don't remember, why don't you remember my name? Off with his head, man, off with his head, man, why don't you remember my name? I guess he does"– arrebatador! Um Riff que não precisa de muito mais para partir a loiça toda!

«Subterranean Homesick Alien» entra numa onda mais calma. Os efeitos de fundo demonstram-se essenciais aos novos temas, e a verdade é que os pormenores fazem a diferença! O efeito Chill-Out transcende muitas das músicas que se denominam de tal. Psicadélico ao ponto de nos transpor para um mundo em slow-motion, onde as cores não são estáticas e onde o conceito de volume não existe. 4 minutos e meio no País das Maravilhas atrás da bela Alice…
«Exit Music (For a Film)» prova que os álbuns que ficam para a história são aqueles que buscam toda uma variedade de reacções, de temas e de composições.
“Today we escape… we escape.” .
Esta música em concreto consegue baixar o astral ganho com o rock orelhudo e o psicadelismo experimental dos temas anteriores. O dom da palavra de Thom Yorke é comprovado através de temas como este, que consegue criar todo um ambiente de desconforto e de alguma nostalgia. Infelicidade.
No verso da medalha está o título já carimbado de depressivo… Um tema pleno de emoção. Um confessionário.

Desiludam-se se procuram neste 3º álbum uma renovação de músicas como «High and Dry» ou até mesmo a rockeira «Anyone Can Play Guitar»! «Let Down» prova uma produção muito acima da média, cada som é trabalhado ao pormenor, e se o ouvinte estiver num estado de espírito explorador encontra camadas e camadas de pequenos pormenores que distinguem os que ficam e os que passam.

É a meio do álbum que encontramos o hino Radiohead. Aquele que se ouve em uníssono público-palco nos seus tão aclamados concertos. É aquele que nos faz crescer aquele arrepio. É aquele, que sem sabermos porquê, se demonstra um camaleão a cada audição! Que cria reacções distintas.
«Karma Police» é uma prova da genialidade da banda em todos os aspectos!
Não é um sucesso comercial indiscutível que comprova o que digo, é verdade. No entanto não desiludirei ninguém ao afirmar que este é o tema que marca o peso de uma nova era de rock alternativo, da maior vitória para a música indie.
Toda uma nova geração foi criada. Antes de OK Computer e Depois de OK Computer são épocas distintas . A-OK / D-OK , nascia a religião Radiohead.
O projecto Easy Star All-Star viu neste registo toda uma nova referência para o Reggae que produzem, criando uma espécie de álbum de versões deste mesmo. Um registo agradável e divertidamente descomprometido.

“Karma Police arrest this man.” - as alegorias são cada vez mais trabalhadas e de certa forma fascinantes.

Se verificarmos o panorama musical dos últimos anos verificamos um crescimento das bandas baptizadas de indie. O Rock alternativo, muitas vezes apontado como pãozinho-sem-sal, ganhou um público fiel e conhecedor. O seu elitismo deu lugar a um certo fascínio.
A procura de novos métodos de composição levaram a novas descobertas e novas procuras. Visionários como Thom Yorke demonstraram-se autênticos Da Vinci num Renascimento com base em tudo o que o novo milénio nos prometia oferecer.

A electrónica demonstra-se definitivamente o 5º elemento duma banda de rock do séc. XXI.

«Fitter Happier» demonstra um cómico Sam, a voz robótica que muitos conheceram graças ao processador Windows dizendo palavras aparentemente aleatórias, num interludio WTF?! …
O sarcástico frontman também dá o seu sinal de graça de vez enquando. Quem disse que o indie tinha de ser rígido?

Os Radiohead que hoje conhecemos estão longe de bandas como os Oasis que sobrevivem na imprenssa muito graças aos gigantescos egos dos irmãos Gallagher. Estes sobrevivem nos media graças á sua vertente politica assinalável. Sem camisolas assumidas, dão um novo peso de consciência desde a industria musical á política não deixando para trás o seu carácter ambientalista.
«Electioneering» revela isso mesmo. E desculpem-me os fans, pelos menos aqueles pós- (Whats the Story) Morning Glory, coitadinhos dos Oasis enquanto forem postos desta forma na gaveta do Brit-Pop... Simples e eficaz, encontramos na sua reduzida letra uma vontade de se demonstratem activos como voz de muito do seu público. O Sarcásmo é a palavra chave.
“Riot shields, voodoo economics,
it's just business, cattle prods and the I.M.F.
I trust I can rely on your vote. “

O retorno dos samples assombrosos é registado na fantástica «Climbing Up the Walls», num falsete que deixa muita matéria para o Matt Bellamy (Muse) aprender. Possivelmente, sem Ok Computer não teriamos muitos dos temas que fazem sucesso no reportório crescente dos Muse! Se bem que em '99 a quando do lançamento de Showbiz, os próprios Muse não acharam muita piada á comparação...
Relembrando sons que nos transmitem um cenário Homem vs Máquina, este tema na estrutura do álbum serve de exorcismo. Apesar de balada, esta música trás tudo menos conforto... é confusa e demasiado pessoal...

«No Suprises» é um renascer total após tamanho experimentalismo. Envolvente e dona de uma atmosféra única!
O uso do som cristalino do xilofone tira lugar ao empreendorismo doutros temas, no entanto é uma beleza estonteante que descobrimos num dos temas mais tristes de toda a galáxia Radiohead.
Um hino de alienação moderna, que retrata a monotonia que marca a vida quotidiana do ser humano. O típico trabalhador das 9h ás 18h e 30m. A infelicidade de viver de certezas e de rotinas.

“A heart that's full up like a landfill,
a job that slowly kills you,
bruises that won't heal.
You look so tired-unhappy,
bring down the government,
they don't, they don't speak for us.
I'll take a quiet life,
a handshake of carbon monoxide,”

Não se precisa de ser um die-har fan para se apaixonar por este tema.
OK Computer é de certa forma um pedaço de Modernismo Urbano aplicado á música rock, e este tema é sem dúvida um dos seus melhores agente imobiliários. Um dos melhores temas da sua discografia, e não me digam o contrário. Single ou não...

E pegando por onde acabei o parágrafo anterior, «Lucky» é um exemplo do inexplicável. Este tema merecia ser a bandeira de um álbum, e nem sequer foi apresentado como single! E esta?
A única explicação que encontro é mesmo porque não se trata de um original do Ok Computer mas com dois anos antes, tendo saído numa compilação para uma campanha de solidariedade em 95...

De qualquer forma, é um autentico pecado para o seu fidedigno público não saber este tema de trás para a frente de tanto passar no leitor de Cds... Esta tenho a certeza que foi escrita para ser cantada por centenas de vozes! Não fará outro sentido senão esse...Não quero que faça pelo menos. «Lucky» fluí como nem uma pena a flutuar numa tarde de Primavera. É muito mais que superficial. É encantadora.

A despedida torna-se complicada, e «The Tourist», talvez por esse encargo, é o tema que menos faço questão de ouvir... Jonny Greenwood, o multi-instrumentalista, é um compositor nato, e a muito se lhe deve os créditos da banda. A ele também se lhe deve esta capacidade em puxar pelos dotes do vocalista, num mundo de subtileza electrificante, onde a perceptibilidade e o easy-listening foram deixados para trás. Radiohead é elitista. Não é para qualquer um: é para quem se atreve a ir mais longe.

OK Computer, saia 3 anos mais tarde e seria o melhor álbum deste novo milénio, pelo menos , até á data.



1- Airbag
2- Paranoid Android
3- Subterranean Homesick Alien
4- Exit Music ( For a Film)
5- Let Down
6- Karma Police
7- Fitter Happier
8- Electioneering
9- Climbing Up the Walls
10-No Suprises
11-Lucky
12-The Tourist

segunda-feira, 15 de março de 2010

Audioslave - Audioslave (2002)


Em Outubro de 2000, Zack de la Rocha, vocalista dos rebeldes Rage Against the Machine, anunciava a sua saída para envergar num projecto a solo.
O mundo parou: o suposto fim dos RATM assim como doutras bandas ; o desvanecer do grunge ; o prevalecimento do Nu-Metal, (que vinha abalar o mundo metaleiro com as influencias no Hip-Hop, em alguma electrónica e num conceito de música rock simplista-o- sintetizada); … O Rock estaria a morrer?
Nunca.
Talvez a introdução seja um pouco extremista, mas a verdade é que num curto espaço de tempo sentiu-se um vazio pouco esperançoso quanto a futuras surpresas.

Em 2002 , algo de inédito acontecia – o icon grunge e sex simbol dos anos 90, Chris Cornell, largava o seu projecto a solo (pouco sucedido face aos resultados nos Soundgarden) e juntava-se a uma formação de luxo, Tim Commeford no baixo, Brad Wilk na bateria, e a cargo da guitarra o virtuoso Tom Morello.

Juntava-se assim o Hard Rock próprio da voz do Chris Cornell, rasgada e inconfundível, ao som da descarga eléctrica que caracterizava os Rage. Formação de luxo.

Duas major labels a negociar o que vira a ser conhecido por Audioslave, algo de espectacular na indústria musical! Uma “fusão” de dois ícones á escala mundial dos últimos anos.
Desde cedo uma novela… se dum lado a expectativa era muita, do outro às más-linguas apontavam objectivos como obtenção de dinheiro fácil numa altura em que ambos estariam numa fraca fase criativa.

A verdade é que Audioslave, álbum homónimo, saiu e foi um sucesso de vendas. Por outro lado, a crítica não cedeu e mostrou-se dura na recepção á banda nos trabalhos originais.

Ao contrário da crítica geral, eu vejo este álbum como uma tentativa de distanciamento dos antigos projectos, sendo que essa possa ter sido mal interpretada por muitos fanáticos das antigas sonoridades - completamente compreensível diga-se!
O som demonstra-se de certa forma original, próprio. No entanto seria difícil enganar o mais distraído dos ouvintes perante as semelhanças e as influencias dos antigos projectos. Semelhanças repare-se.

Rick Rubin a cargo da produção é meio caminho andado para o sucesso. Albums miticos de Slayer a Red Hot Chili Peppers, passando por Neil Diamond e Johnny Cash, Shakira, System of a Down, Linkin Park, Metallica, AC/DC, Smashing Pumpkins, Wu-Tang Clan, Beastie Boys, Run DMC, Limp Bizkit, Kid Rock, LL Cool J, Slipknot… é preciso continuar?!
Toque de Midas no mínimo! Até a banda Sonora do South Park teve a produção deste Sr.!
Ah! … e lá está! Rage Against the Machine!

Depois de Renegades of Funk, Tom Morello e Cª já sabiam como funciona Rubin e como este tenta retirar o melhor de cada elemento colectivizando-o num só. Se por um lado é uma perspectiva muito poética, por outro é aqui que a jovem e experiente formação peca.
Este álbum capta e retrata muito bem o espaço temporal, aliás, a fase inicial da banda. A insegurança de agradar a elementos divergentes, de procurar pontos de equilíbrio que não seriam assim tão indispensáveis torna as coisas menos fluidas e de certa forma forçadas em alguns momentos.
No entanto, não se verifica a queda em tentação de modas emergentes de um post-grunge radiofónico nem de uma procura forçada de algo mais pesado, que muito se temia em toda a discografia dos RATM, que sempre resistiram sem ceder!

Pelo contrário, Audioslave apresenta um conjunto de músicas focadas num hard-rock modernista face aos efeitos genialmente criados por Tom Morello que teimosamente joga ao toca e foge com as linhas de baixo e aos ritmos marcados a negrito da bateria.
E a voz de Chris Cornell? Desde Soundgarden, e do seu clássico Superunknown, que não o ouvíamos em tão boa forma!

«Cochise» desde cedo dá um certo tom de suspense á coisa – o que irá sair daqui?
As influências de algum Heavy-Metal e Hard Rock ao estilo Led Zeppelin encaixam em riffs bem ao estilo que sempre caracterizou Tom Morello como guitarrista.
Uma música que sem cair em excessos, agrada por um certo revivalismo. Simples e sem a densidade e a objectividade que Zack lançava nas suas Punch-Lines.
Este foi o primeiro single e obrigatoriamente um clássico da banda.
A letra revela alguns traços politizados, referencias á luta indígena, curiosamente escrita por Chris Cornell e não por Tom Morello, o eterno inconformado.
Será este o preço a pagar de Chris? “Go on and save yourself
and take it out on me” – é repetida de forma a tornar-se um refrão inevitável de ficar no ouvido.
O segredo no som próprio da guitarra reside no simples e inovador uso da técnica de pedais com um surpreendente… lápis! Helicóptero pensavam vocês? Pois…
O vídeo por sua vez é todo um simbolismo pela nova união. Um celebrar e uma apresentação de velhos conhecidos.

«Show Me How To Live» revela uma vertente mais rasgada, um apelo ao headbanging num refrão despreocupado, que nos faz cair na tentação de ao segundo tema estarmos a afirmar que este se trata dum possível ao rumo desejado dum rock que se quer actual e dinâmico.
Mais um dos temas a terem que ser reconhecidos por qualquer candidato a fan da banda. O efeito Phaser saído do amplificador dá todo um toque de especiaria ao tema, mais contido por sinal, o solo demonstra um novo rumo na técnica de Morello que opta por uma objectividade
som a som, mais uma vez influência de Rick Rubin que gosta sempre de deixar tudo bem perceptível.
Ao som de «Gasoline» sente-se uma certa estruturação do colectivo, numa marcação de tempos sistémicos que não primem pelo épico mas mesmo pela naturalidade com que se deixa fluir. Os rasgos de voz demonstram uma óptima forma de Cornell que mais uma vez não teme puxar por notas mais dificultadas ao “cantor” comum.
Por outro lado «What You Are» aponta uma estrutura mais ao estilo Seattle de outras praias onde o vocalista sem sente mais á vontade. Uma espécie de Power Ballad do novo milénio que mantém o nível rítmico da bateria. A sequência inicial faz de certa forma relembrar «Hells Bells» de AC/DC mas o som em overdrive dos riffs em chorus, ou como quem diz, no refrão, fazem deste tema dinâmico e sem espinhas. O Solo é no mínimo invulgar, e mais um para a caderneta de inovações de Tom Morello que consegue puxar pela originalidade sem se limitar ao braço da guitarra e ao “simples” dedilhar de notas.

O momento inevitável e que dita todo o sucesso da banda numa música chama-se «Like a Stone». Um tiro direito á cabeça. O alvo tinha sido marcado e estava pronto a abater. Um sucesso imediato graças à subtileza letal de solos matadores de guitarra, e linhas de baixo que dão todo um ênfase ao tema. A letra dá vontade de decorar antes de a ouvir! Ou direi escutar?
Um tema longe de ser uma explosão ao nível de RATM e do rock puro e duro de Soundgarden mas que demonstra toda uma evolução de sonoridade na procura de algo novo.
Mais emotivo do que se pensa, este tema não cede ao liricismo banal de amores proibidos e que invadem as rádios mundias, retrata todo o peso da incerteza.

“And on my deathbed I will pray
To the gods and the angels
Like a pagan to anyone
Who will take me to heaven”

A eterna falha dos Audioslave como banda foi a falta de momentos de magia, por assim dizer, na sua discografia. Tudo em regra geral soa bem, mas sente-se falta daqueles picos de loucura criativa que ditam a opinião final e que por vezes conseguem fazer fechar os olhos a muita porcaria…

«Set It Off» retoma o formato inicial de temas como «Cochise», definindo o que viria a ser a sonoridade própria de Audioslave. A linha de baixo procura trazer a sua vertente mais funk, tanto calma como agitada, reflexo de uma produção sem grandes riscos, tomada como certa do inicio ao fim. Convence, nada mais.

Na sombra do Sol Chris Cornell abraça um momento bem Soundgarden «Fell on Black Days» com o peso dum certo preconceito que ridiculamente obriga tudo pós Grunge a ser mesmo Post-Grunge.. «Shadow of the Sun» é um tema que foge á linha de raciocínio apresentada, dando um certo toque de diversidade á coisa. Sente-se todo o potencial ao passar de cada tema, mas nunca um pico de carreira em cada um dos músicos.

Daqui para a frente, a visibilidade dos temas diminuí substancialmente. Sempre regulares, apresentam uma «Exploder» a dar resposta ao tema anterior, uma «Hypnotize» de facto hipnótica e com uma sonoridade que vai buscar as mais improváveis influências eléctronicas que define temas de Trip-Hop como de «Unfinished Shympathy» dos Massive Attack. Um Scratch que já não engana ninguém desde «Bulls on Parade» em que com muita dúvida se lia no álbum que nada mais levada do que guitarra, baixo e bateria na sua composição…

«Bring Am Back Alive» dá peso ao baixo, que fica demasiadas vezes para segundo plano neste álbum, pelo menos na altura de brilhar. Um momento que certamente foi dar razão a muitos prognósticos pessimistas. O que raio estavam a pensar que ia ser o resultado de distorcer de forma pouco ortodoxa?
A sequência final mata o álbum. A verdade é esta. Fica a ideia de algo que conquistariam mais tarde com Out of Exile, mas neste fica muito aquém.

«Light My Way» mostra uma certa falta de originalidade de riffs quer numa fase de introdução quer na fase rítmica cantável… a adaptação ganha contornos algo cansativos e que dão pouca vontade de alargar muito mais a recepção demais temas. Tal como o Sporting de outros tempos, parece que para ganhar basta apostar nos primeiros 15 minutos. Mas tal não cria campeões…
«Get Away Car» está demasiadamente concentrada na obtenção de algo especial, algo que fique eterno. Um bom registo, íntimo e que foge ao álbum por breves minutos. Um solo mais jazzy da banda, que faz deste um registo raríssimo na carreira de cada elemento.
Chris Cornell está longe de ser um Robert Plant, mas á qualquer coisa de doce naquela voz sofrida e desgastada. A melancolia e a ressonância de cada sílaba fazem de « Last Remaining Light» um retardar de prestação de contas banda/público. As dúvidas ficam para depois. Em Audioslave celebra-se o potencial – diamante em bruto - que é ter uma super-banda.

É sem dúvida um álbum razoável que sai completamente lesado pela falta de cariz individual, de uma preocupação desmesuravel em tomar riscos. No entanto, é a história que dita tal opinião. E ela diz-nos que os clássicos já passaram, hoje apreciamos o percurso dos artistas.
O título do álbum reflecte bem o que une a banda. A paixão pela música faz deles escravos na criação de temas que nos enchem de orgulho só de os ouvir. Temas que ainda hoje dão razão aos ídolos do passado. Hoje do presente, e a continuar assim, certamente do futuro.


1- Cochise
2- Show Me How To Live
3- Gasoline
4- What You Are
5- Like a Stone
6- Set it Off
7- Shadow on the Sun
8- I Am a Highway
9- Exploder
10-Hypnotize
11-Brimg'em Back Alive
12-Light My Way
13-Getaway Car
14-The Last Remaining Light

terça-feira, 9 de março de 2010

Jeff Buckley - Grace (1994)


Jeff Buckley é um James Dean reencarnado nos anos 90. A sua imagem invoca rebeldia mas a sua música demonstra uma delicadeza extrema. Perder Jeff Buckley foi perder todo um potencial incalculável e que ainda hoje nos faz perguntar: até onde poderia ter ido?
Grace será a sua eterna obra e a nossa eterna dúvida.

Aos 27 anos juntou-se a clube dos astros que cumpriram o prazo de validade como uma estrela. “Live fast, die young”. Jimi Hendrix, Kurt Cobain, Brian Johnson, Jim Morrison, entre outros que formam o clube 27.

Este é o único álbum de estúdio do músico e compositor. Grace tem vindo cada vez mais a ser reconhecido como sendo de culto, não só pela crítica como pelo público, que dentro dele encontra várias referências musicais assinaláveis. Nomes como Robert Plant e Jimmy Page (Led Zeppelin) assim como David Bowie fizeram questão de deixar a sua opinião bem presente, citando que este se trata de um álbum maravilhoso e imprescindível nas listas dos melhores de todos os tempos. Thom Yorke (Radiohead) por sua vez admitiu que um dos maiores hinos da música indie/ alternativa , «Fake Plastic Tree», é composta com várias influências vocais de Buckley.

Da primeira vez que ouvi este álbum tive a sensação que muitos terão, de estar a verificar algo de maravilhoso. Um golpe de genialidade. Humilde e sentido, as suas letras soam sinceras e em tom de desabafo.
Em Grace encontramos um mundo de incertezas dum jovem compositor que foi contra tudo e todos, criando algo de muito próprio, e por irónico que pareça, algo de muito maduro.

Jeff Buckley é um verdadeiro músico. Á música dedicou a sua vida. Da música vêem as suas origens.
É em Tim Buckley que tudo começa. O pai do músico era também ele outro tal, sendo relativamente conhecido. Também ele falecido com apenas 27 anos, nunca manteve uma relação para com o filho desejável, e para compreender Grace é inevitável percorrer o percurso familiar do seu autor.

Não se revelam histórias do passado nem opiniões, apenas sentimentos. O afastamento que Jeff manteve do pai durante anos ditou tanto a sua personalidade como a sua música.
Jeff não queria soar como o pai. Não queria cair na tentação de limitar a sua criatividade. Não queria cair nos mesmos erros …
A heroína roubo-lhe o pai distante. O pai que estava disposto a perdoar mas ao qual deu o seu tributo. Jeff Buckley era «Scotty» Mothead, apelido do padrasto , após a morte de Tim Buckley, este optou por usar o seu primeiro nome e o verdadeiro apelido.

«Mojo Pin» inicia a sequência que tira o fôlego a qualquer um. O tom psicadélico dos versos sussurrantes de Jeff dá lugar a um prolongar dos dotes vocais do mesmo na ponte para o sentido refrão.
Este tema representa toda a envolvência doentia de vícios insaciáveis, das pessoas às drogas.
Consta que tudo começou num sonho, onde Buckley viu um «chuto» entre os dedos dos pés duma mulher de cor sentada no chão.
Se há coisa que «Grace» consegue como poucos álbuns o conseguem fazer, é conseguir recriar os sentimentos da letra através da própria música, fazendo chegar ao ouvinte de forma muito natural e pitoresca.
«Grace» dá continuidade à incrível composição partilhada nestes dois primeiros temas com Gary Lucas. A banda que fica de certa forma á sombra do icon Buckley é de qualquer forma um bem mais do que essencial nesta magnífica produção! Um tema que puxa pela veia mais rockeira do trovador que é acompanhado pelo excelente trabalho de bateria e por alguns “flangers” a dar o efeito de loop ao rebentar da coisa.
Um dos temas mais celebrados e compreende-se bem porquê. Mais uma vez o tema toca e as letras são o estandarte perfeito. Dedicada ao sentimento de imortalidade que a paixão lhe dava, Jeff celebra a vida enquanto pode…
A escolha de temas, a busca de inspiração nas pequenas/grandes coisas da vida… a forma como as torna possível – tudo isto prova a genialidade dum jovem com pouco mais de duas décadas. O risco que tomou faz dele um herói da música contemporânea.
«Last Goodbye» é um verdadeiro rasgo de música pop-rock de qualidade. Se do outro lado do pacífico estamos habituados a tudo em grande, tudo bem Hard Rock, JB representa a simplicidade como fórmula de sucesso. Um tema que muito boa gente gostaria de ter composto ainda nos dias que correm. A ele se entrega o prémio do tema mais aplaudido da banda como single. Os riffs orelhudos deixam escapar os agudos de Jeff que soam incrivelmente seguros.
A voz é cristalina e não falha uma única nota. Desafia as suas capacidades a cada compasso e não teme cair na histeria. Uma das melhores vozes de todos os tempos, não haja qualquer tipo de dúvida.
Esqueçam qualquer balada que ouviram até ao primeiro segundo deste tema. Escondida numa certa timidez, «Lilac Wine» demonstra a verdadeira noção de fragilidade e de beleza, pura e incorruptível . Num tom de voz que não destoaria num Freddy Mercury, trás algo de novo ao álbum. Trás a rendição do ouvinte e a prova de toda uma cultura musical incontestável mergulhado num mar de referencias, que neste caso foi até Hope Foye buscar este tema dum musical com mais de meio século. Eterno.

«So Real» soa “so indie” que obriga-nos a verificar as tais influências que este transmitiu a bandas como Radiohead. Composta num simples rasgo de espontaneidade a meio da noite – duma só vez apenas! A secção rítmica, aliás o refrão! Estonteante! Os pequenos arranjos de produção estão 5 estrelas, “…I Love You..” soa de forma hipnótica, soa a trip, soa a um estado de espírito transcendente…
O suspiro.
Épico, um dos melhores momentos de sempre na carreira de Jeff Buckley. Um dos melhores temas de sempre. Uma das melhores interpretações, arriscada e conseguida.
«Hallelujah» foi tornada 8 maravilha do mundo na sua voz.
A sua beleza estonteante contrasta com o peso emotivo da voz de JB. A sua voz toca-nos, inspira-nos, faz-nos chorar, rir, dá-nos esperança, dá-nos um momento de introspecção. É transparente, é transcendente. É Imortal.
Leonard Cohen deu ao mundo a matéria, mas a obra-prima é de sua autoria. Quando deixamos de chamar cover para versão é por que algo de bom se proclama. Pois bem , eu proponho uma adição do sufixo –ão a versão para dar um ênfase ainda maior. Era no mínimo merecido.
Dando continuidade ao tom mais emotivo, «Love You Should’ve Come Over» é uma lição para músicos da nova geração, sem fugir demasiado á linha dum blues pop-rock consegue demonstrar certas influencias que as bandas que ouvia no passado tiveram no seu percurso musical. Tal como noutros temas, é de certa forma visível um foco na voz de Robert Plant, no entando as influências de distintos géneros musicais é mais do que visível em todo o álbum.
«Corpus Christi Carol» tira as dúvidas, este é mesmo um trovador. Quem no seu perfeito juízo arriscaria em composições do séc. XXVI num álbum de estreia, sem género definido?
A resposta é óbvia, e mais uma vez, é de abalo que nos rendemos! É mais um “olha o que eu sou capaz de fazer” do que uma benesse para Grace como álbum. Os Dotes vocais são incontestáveis, mas se há um momento a dispensar, este seria o único… a custo!
«Eternal Life» vive o anos 90, sedentos de garra e de alienação, de espírito rebelde, de grunge-o-mania . É o ponto alto em termos rítmicos donde mais uma vez se relembra a incrível banda que o acompanhava.
Se fosse personificado a cada música, Jeff Buckley metia Fernando Pessoa num bolso no que toca ao número de Heterónimos que se verificariam. Com idades distintas, estados de espírito, tudo. O experiente senhor do tema anterior dá lugar a este jovem cheio de garra!
A fechar, ao som de precursões e de pratos que relembram de certa forma o clássico «Planet Caravan» do grande Paranoid dos Black Sabbath, este «Dream Brother» é mais um reflexo da vida nada facilitada de Jeff Buckley e de toda a sua relação com Tim Buckley. O alarmismo deste tema toca mais uma vez á fuga de responsabilidades e á entrega á ruína. As palavras proferidas ao longo de Grace têm um tom tão biográfico que abala de certa forma o nosso mundo.
Um álbum sincero, onde Jeff, incrivelmente, consegue transmitir toda a qualidade como músico e como compositor. A letra é pesada, cheia de carga emotiva. Um reflexo de vivencia, um respirar de alívio, e um apelo de esperança. Os três num só.
Jeff Buckley viveu muito o pouco tempo que teve.


1- Mojo Pin
2- Grace
3- Last Goodbye
4- Lilac Wine
5- So Real
6- Hallelujah
7- Love, You Should've Come Over
8- Corpus Christi Carol
9- Eternal Life
10-Dream Brother

segunda-feira, 8 de março de 2010

Justice - Cross (+) (2007)


Desde Discovery, aquele mítico segundo álbum dos míticos Daft Punk, que a música electrónica não encontrava um trabalho á altura. Cross , chamemos-lhe assim, é possivelmente o melhor álbum de estreia do género, criando de forma automática o estatuto de estrela da dupla Gaspar / Xavier, os Justice.
As influências francesas são mais do que óbvias, no entanto, os Justice pegaram na fórmula dos DP e recriaram todo o conceito, tornando-o mais «pesado» no que toca aos “beats” que se demonstram monstruosos, cheios daquela sujidade que hoje em dia distingue o sucesso do Maximal e do Fidget perante todos os outros géneros distintos. A própria Ed Bangers Records é a prova desse sucesso.
«Genesis» abre esta “cruz” como nem no Antigo Testamento tinha conseguido! Uma entrada que relembra aqueles momentos épicos dos filmes típicos da Páscoa dá entrada a um mundo de efeitos catalisadores para o maior dos agnósticos no que toca ao dancefloor. Pede-se emprestado umas palmas a «In da Club», que ninguém repara e arranca que se faz tarde!
Alguém anda para lá ao tiros com a sua pistola lazer, porque nesta galáxia somos alvo de tiroteio constante, e «Let There Be Light» aumenta o ritmo.
Se no século passado os velhinhos AC/DC diriam «Let There Be Rock», os mais “modernos” vêem os neons como a luz de saída. Os ritmos alucinantes fazem corar muito do techno de terceira que muito se ouvia á uns aninhos - que vergonha!
Esta nova vaga no mundo da electrónica veio cheia de boas perspectivas quanto ao futuro, de Boys Noize a MSTRKRFT, passando pelo Steve Aoki e os seus colegas Bloody Beetroots, têem certamente como referência este incrível álbum.
«D.A.N.C.E.» dá a conhecer os Justice ao mainstream de cadeias como a MTV com o famoso vídeo das t-shirts , sendo galardoado pelo sucesso que ditou. É também o momento mais cantável do álbum a par de «We Are Your Friends», um hino dos fans dos Justice.
Ao vivo apresentam toda uma introdução à capella que se demonstra um dos picos de ansiedade verificado em Across the Universe (ao vivo). Um tema que vai inteiramente dedicado ao rei da pop Michael Jackson, que mais do que ninguém, abalou as pistas de dança como nunca ninguém o fez.
«New Jack» demonstra descaradamente as tais referencias a Daft Punk que referia anteriormente. A fórmula é simples, dançável e sem picos. «Phantom» introduz um neo-clássico, lá está , «Phantom pt.II» . Juntos demonstram o que de melhor vieram os Justice trazer ao mundo. As influências do Heavy Metal (anteriormente eram uma banda de covers) transcendem os trocadilhos e as versões ( «Master of Puppets» a fechar os dj sets) . É das músicas mais “pesadas” do álbum, num trabalho de mistura ideal, um chamariz a qualquer DJ que se preze!
Por sua vez, «Valentine» demonstra-se despreocupado e fluído, o órgão manda até onde a bateria deixa…
«Tthhee Pparrttyy» está prestes a começar! Uffie dá a voz : «Let me tell you what I do when my day is over…».
O preview fica dado, num tema que deixa muitas das camadas de efeitos de sintetizador de fora para dar um maior ênfase vocal como não se verifica no resto do álbum. Diga-se a verdade, a melhor das opções.
«DVNO» começa a party bem ao género Club, aquele em que o imaginário nos leva para Ibiza onde tudo o que é loira sobe ao balcão para perder a cabeça! O tema mais virado para o House é no entanto trabalhado ao ponto de ter claramente o selo de qualidade do duo.
Contrariando a ideia dum instrumental, este tema prova que Cross tem tudo menos o que seria preciso para se tornar enfadonho, muito pelo contrário, é dinâmico e contrastado.
O momento mais “a rasgar” do álbum é o algo desvalorizado «Stress» que capta bem o título, cheio de efeitos e de samples que certamente ajudaram aos tais 400 álbuns usados em pequenos efeitos e enfeites. A sirene alarma tudo e todos num tema cheio de novas ideias e de um experimentalismo puro e duro que demonstra todo o potencial por explorar dentro da electrónica.
Mais um trocadilho a um clássico do Heavy Metal , «One Minute do Midnight» dá entrada a uma das sequências mais famosas dos Justice, cantada em coro pelos noctívagos. Ao vivo a versão fica acelarada, e demonstra-se perfeita para saltar, suar – rebentar com tudo!
Numa linha de raciocínio, «D.A.N.C.E.» vêm dar a despedida de todo o conjunto de músicas maravilhosas apresentadas a longo deste Cross, no entanto é na obra-prima que reside o encore : «Waters of Nazareh».
Não faço a mínima ideia se esta se trata duma referencia a «Rivers of Babylon» dos Boney M, uns tais jamaicanos que residiam na Alemanha e faziam temas disco dos anos 70 terrivelmente irritantes…não interessa…
Espectacular!! Cuidado com o Bass, com o Treble, cuidado com o volume… o perigo de surdez é iminente, entra e corrói sem dó nem piedade. Um dos momentos mais explosivos da jovem carreira e que muito dita do seu sucesso. A escolha deste tema para single de apresentação é mais do que de louvar! Era obrigatória!
Cheia dum certo ruído e de efeitos que no mínimo deixaram o ouvinte desconfortavelmente apático sem saber como reagir. Um tema para ser tocado no pico das melhores noites! O topo da cadeia alimentar da música electrónica dos últimos anos.
Cross é devastador, é imparável e imprevisível. Depois disto, nunca mais pegarão num Orbital Mix ou num Portugal Night, isso garanto-vos eu.
É tudo menos metal, mas que parte a loiça toda parte!


1- Genesis
2- Let There Be Light
3- D.A.N.C.E.
4- Newjack
5- Phantom
6-
Phantom pt.II
7- Valentine
8- Tthhee Ppaarrttyy
9- DVNO
10-Stress
11-Waters of Nazareh
12-One Minute to Midnight

Pearl Jam - Backspacer (2009)


O tardio álbum homónimo, Pearl Jam, demonstrou-se politico, com garra, com dois ou três picos como a incrível «Comatose», a rockeira «Life Wasted» e a obvia «World Wide Suicide»… pouco mais do que isso.
De facto, a banda de Eddie Vedder estava tão concentrada na mensagem que se desleixou um pouco na entrega aos seus temas…

Foi um bom pretexto para saírem do poço onde muitos arriscavam dizer que tinham caído – dou graças por não ter seguido tal teoria! Backspacer, é a meu ver o renascimento duns Pearl Jam. Mais «leves», rítmicos, jovens.

Os novos temas têm uma capacidade única na banda de me alegrar o dia! De me porem bem disposto desde a primeira audição, como até bem pouco tempo apenas Big Whiskey and the GrooGrux King (ultimo álbum de Dave Matthews Band) tinha conseguido.

A produção deste álbum demonstra uma vertente mais soft da banda de Ten, donde outrora saíram rasgos de fúria como Once, Porch, State of Love and Trust sem fugir a Alive e Even Flow…

Eddie Vedder entra num registo cuidado, sem se dar ao luxo de riscos desnecessários com «Gonna See My Friend». Como na maioria dos temas de Backspacer, este tema fica facilmente no ouvido. No entanto, a estrutura musical é bastante semelhante á de singles dum passado recente … mais contidos. Não é necessariamente uma desvantagem, apenas uma nova versão.
«Got Some» dá continuidade e abre o imaginário do que poderá sair deste álbum para os palcos. Cheia de ritmo bastante “Pearljamesco”!

Mais radiofónico do que isto é impossível, pensado para o formato FM, «The Fixer» é uma espécie de vitrina para o público em geral - Pearl Jam voltaram num formato mais dinâmico e fluído, podendo cair na má língua da musica considerada popular, mas para isso contamos já com um curriculum invejável para calar quem vier pela frente…

Não se engane se pensa numa evolução ao género Timbaland como o colega doutras praias Chris Cornell optou…
Temos o Rock característico da banda que nunca desiludiu os fans a 100%.
«Johnny Guitar» é um tema que aprecio bastante, os rasgos vocais do mítico frontman são ainda hoje impressionáveis. Mais um possível single!

Harmonia é um vocábulo que define bem este novo álbum, tudo soa limpo, bonito – podem ouvir ao pé dos papás á vontade que certamente ganharão novos fans inclusive!

«Just Breath» é a prova disso mesmo. A formula é algo repetida. Lembram-se de «Guaranteed» da banda sonora de Into the Wild? (aquela que dissertei num artigo á algum tempinho) . A formula continua a resultar. Comovente, sentida, melancólica. Dá-se ao luxo duma linha de baixo pouco ortodoxa, algo parola – mas bolas, é Pearl Jam e nada sai mal! Impressionante…

Eddie Vedder de Black a Better man, Small Town a Nothingman, Guaranteed a Just Breath… muito este tipo gosta de me por de lágrimas a cair do cantinho do olho!

Num celebrar da Natureza, «Amongst the Waves» advinha-se cantado em coro por multidões. É conhecida a paixão pelo mar, nunca o esconderam, e este tema é o derradeiro tributo. Mais uma vez não verificamos um «Given to Fly», a banda amadureceu e penso que já ninguém lhes pede um reavivar de memórias grunge.
Pearl Jam tornaram-se uma instituição da música contemporânea, um ponto de comparação só por si – alcançaram a personificação do seu próprio estilo.

«Unthought Know» segue a linha de raciocínio até que Supersonic trás de volta os rasgos de velocidade dum rock mais energético que rapidamente quebra com «Speed of Sound» - o ponto mais baixo deste álbum. «Force of Nature» soa a mais do mesmo…

«The End» pega no título dum tema histórico dos The Doors, mas acabam ai as semelhanças. Melancolia ao género de «Candle in the Wind», um tema pesado do ponto de vista emotivo. Talvez demais para fechar o álbum, mas este é o Eddie Vedder que tanto adoramos, o poeta.

Um bom álbum, que não desiludindo também não faz mossa. No entanto terei todo o gosto em assistir a alguns destes temas ao vivo que certamente funcionaram na perfeição face ao registo que se apresentam.
Tim Mccready demonstra-se um verdadeiro artista neste Backspacer. Porque nem tudo se resume a pormenores e a enfeites.


1- Gonna See My Friend
2- Got Some
3- The Fixer
4- Johnny Guitar

5- Just Breath
6- Amongst the Waves
7- Unthought Know
8- Supersonic
9- Speed of Sound
10-Force of Nature
11-The End

Them Crooked Vultures - Them Crooked Vultures (2009)


Já tínhamos saudades duma super-banda para nos entretermos!
Gosto particularmente do sentimento de uma certa falta de compromisso a longo prazo para com o projecto – apenas bons músicos a criar boa música, será que encontramos algo tão louvável a este ponto nos dias que correm?

Têm tudo para ser um sucesso comercial, não haja dúvida! Mas, penso que pela fluidez demonstrada a cada tema deste álbum se demonstra todo o prazer que o Rock’n’Roll ainda consegue catalizar. Ao som de Them Crooked Vultures voltamos ao guitar hero de outros tempos, aqueles onde uma guitarra tinha 6 cordas e não 5 botões.

É extremamente injusto resumir esta banda a uma espécie de Real Madrid. É galáctica? Sim. Resume-se a isso? Não!
A cumplicidade entre Josh Homme e Dave Grohl é conhecida do público já á algum tempo, é sem dúvida o peso do nome Led Zeppelin (que inveja faz a muitas bandas do mundo da metalada!) que faz levantar muitas orelhinhas - confesso, também as minhas.
Um veterano de guerra como John Paul Jones não iria cair na cantiga do ladrão se não valesse a pena…

Á primeira audição parece que estamos perante uma evolução de sonoridade dos Queens of the Stone Age, os vocais estão lá para isso mesmo, nos trocarem as voltas todas! Que registo de Josh mais uma vez! Gostamos muito de referir estrelas subvalorizadas e buscar por vezes coisas do arco-da-velha – pois bem eu aqui digo, um dia este Sr. vai estar num patamar superior ao que hoje lhe é atribuído, isso vos garanto.
Um verdadeiro artista.

Hard Rock puro e duro como nem Velvet Revolver conseguiram transmitir para o novo milénio, pelo menos com Libertad ( Contraband é outra história(zinha)..).

Começaram bem. Hoje em dia, nada melhor do que uma banda se demonstrar de certa forma saudosista perante a industria e o público, dando aquilo que todos conseguimos «roubar» sem sermos apanhados. Nem todos podemos ser uns Radiohead mas a arma Youtube não foi nada mal pensada! Mais cedo ou mais tarde ia lá parar…

Passemos então para a obra feita:
O resultado de tão distinta equação poderá ser o mesmo para quem vai reconhecendo QOTSA e EODM ( Eagles of Death Metal), mas o mestre de cerimónias e a arma secreta é sem dúvida John Paul Jones, com os seus 60 e picos a transbordar de experiência e musicalidade!
A linha de baixo, por vezes subtil, cria toda a dinâmica do grupo. Robert Page e Jimmy Page ocupavam demasiado espaço em palco para dar a especial atenção ao elemento que parecia ser o mais dispensável dos LZ… Quem me dera ser assim tão dispensável!
Por exemplo, «Reptiles», demonstra todo um resultado de anos e anos de experiência e evolução do antigo projecto do Sr. Jones.
Dave Grohl por sua vez relembra os tempos áureos de Nirvana a abrir a década de 90 cheio de energia contagiante na ponta das baquetas. O Som seco, sujo, aparece desta vez mais trabalhado e contido mas sem envergonhar um John Bonham. Certamente uma referencia neste álbum.

«No One Loves Me & Neither Do I» é a camisola deste álbum homónimo. O compasso de espera marcado pela bateria abre caminho a um tema bem groove e de certa forma psicadélico criando todo um imaginário para o rumo que o álbum irá levar…
Sente-se um Dave «nervoso», com vontade de explodir – seja feita a sua vontade!
Uma batida pesada no ponto, um bom riff sem pressas… lembram-se de «Kashmir»? Apliquem isso ao novo milénio…

«Mind Eraser, No Chaser» é o primeiro momento mais dançável, mais old-school rock’n’roll sem espinhas! Um dos meus temas favoritos, onde Josh e Dave se encontram em sintonia perfeita. O registo vocal de ambos é de facto um Ying e um Yang genuíno. A complexidade dos temas não os obriga necessariamente a uma progressividade forçada e penso que este seja o grande segredo na qualidade deste Them Crooked Vultures. Ainda é possível fazer temas memoráveis com menos de 5 minutos!!

«New Fang» faz bater o pé, Josh ao longe (efeitos) consegue nos chegar ao ouvido, num blues-rock bem saudável. Que tema rasgado, belo, trabalhado mas no entanto fluído.. Haveria um melhor single de apresentação?!

«Dead Ends Friends» tem a marca de Josh, no entanto «Elephant» é todo ele um relembrar de musicas como «Rock’n’Roll» e «Black Dog». Que riff genial!! O pico do álbum para muitos, e quem sou eu para desmentir?! E já que estamos numa de nostalgia, aproveita-se a onda e entramos num modo anos 70/80, pegamos na nossa air-guitar e curtimos ao som de «Scumbag Blues»- descomprometido num tom perfeitamente genial.

É de realçar que denota-se uma certa falta de Foo Fighters dentro do álbum, será mais cliché dizer o contrário do que outra coisa. O que é certo é que o grupo de Dave Grohl tem tido uma certa dificuldade em encontrar o rumo doutros tempos áureos, e não comerciais como os mais recentes – repare-se que eles eram um exemplo perfeito do ponto de equilíbrio!
Será que encontramos o derrotado deste projecto? Dave Grohl a marcar pontos com Probot, Desert Sessions e agora Them Crooked Vultures…

O ritmo cativante das primeiras 8 musicas é repentinamente cortado por um intervaldo («Interlude With Ludes») que me pergunto a cada audição: até que ponto é um contributo para este álbum? Cria expectativa…Ou pela primeira vez a vontade de carregar no botão para o próximo tema…

O título reduzido «Warsaw or the first breath you take after you give up» é a camuflagem dum dos temas onde o baixo de John Paul Jones se destaca. Um acelerar subtil de ritmo num quebra compasso total a meio da música faz-nos crer que este tema poderá ser daqueles a que nos referimos como mágicos nos concertos ao vivo. O instrumental prova a qualidade e a experiência do trio. É aqui que reconhecemos algo de muito especial neste projecto.

As influências mais recentes, são denotadas em «Caligulove» e «Gunman», num registo mais a tender para certas bandas influentes da ultima década em terras de Sua Majestade. Sente-se uma certa quebra inexplicável, a diferença dum 5/5 para um 4/5…

«Spinnig in Daffodils» faz-me relembrar Scott Weiland (Stone Temple Pilots, Velvet Revolver) em registos como «Vasoline» onde tende em enrolar a voz de uma forma mais sensual do que rasgada, contida no ponto. Um tema que transpira sex appeal.
O trio despede-se numa espécie de marcha… Metemos o modo replay e consumimos mais uma vez a maravilhosa e catchy «No One Loves Me & Neither Do I». Nunca soou tão bem dizer tal frase!

Que álbum fantástico, certamente uma das prendas de Natal que não irá desiludir pela certa!

Não reúne o melhor de cada elemento, mas a sua comunhão faz deste um álbum mais do que conseguido neste final de década! Sem dúvida, um dos projectos mais interessantes dos últimos tempos.

Muitos discutem sobre o TGV no nosso país, eu já só pedia TCV !


1- No One Loves Me & Neither Do I
2- Mind Eraser, No Chaser
3- New Fang
4- Dead End Friends
5- Elephants
6- Scumbag Blues
7- Bandoliers
8- Reptiles
9- Interlude With Ludies
10-Warsaw or the First Breath You Take After You Give Up
11-Caligulove
12-Gunman
13-Spinning in Danffodils

MGMT - Oracular Spectacular (2007)


Na recta final de 2007 surgia o álbum que abalou as listas de melhores de 2008 ironicamente. MGMT, ou Management como muitos na dúvida os citavam, apareciam ao grande público com este inovador Oracular Spectacular, repleto de camadas de sons muito próprios, na descoberta de todo um novo rumo na música indie moderna.
A sua música puxa para o psicadelismo, para uma pop fundamentada em sintetizadores sem cair na tentação do mainstream de consumir e deitar fora.
Fortemente aplaudidos, estes hippies dos tempos modernos oferecem um leque de energia dançável misturado em temas de melancolia e de uma introspectiva total. São temas envolventes, sem serem progressivos demais para se tornarem algo monótonos e aborrecidos, pelo contrário.
De Brooklyn para o mundo, «Time to Pretend» foi o primeiro single que sem dúvida alguma levantou poeira… Um tema mais do que arriscado para o formato single, e a sua passagem na rádio nacional é algo que ainda hoje me faz alguma confusão, visto que se mistura com artistas e musicas que tem o único intuito de vender a curto prazo.
Este é o preview mais do que perfeito para todo o álbum. A brincadeira de sons e de samples mistura-se na guitarra e no órgão num tema de camadas que nos faz viajar na maionese… o Estereotipo da estrela de Rock é o tema, a voz cristalina de Andrew VanWyngarden encaixa na perfeição ao tom da música. Sem cair em exageros, é das músicas mais bem conseguidas dos últimos anos no panorama indie electrónico.

«We'll choke on our vomit and that will be the end.
We were fated to pretend.»

Um futuro clássico da banda que ainda só nos presenteou com este álbum de estreia.

«Weekend Wars» demonstra-se menos «boa onda» e entra numa onda mais politica, e não fossem eles os hippies do Séc.XXI, numa de pacifistas.

«Was I? I was to lazy to bathe
Or paint or write or try to make a change.
Now I can shoot a gun to kill my lunch
And I don't have to love or think too much»

Mais progressivo que o anterior, este tema dá uma maior importancia à bateria que monta o ritmo como maestro de efeitos em espiral. Um tema que não fica nada atrás de alguns temas de Arcade Fire.
Mais sentida que a celebração anterior, demonstra uns MGMT mais conscientes, algo que ganha muito peso nos géneros mais alternativos. A perspectiva do artista reflecte muito a sua música.
«The Youth» é o tema que podemos apontar como a balada do álbum por assim dizer. Um hino á mudança e um apelo, não só aos jovens mas a todos.
Um momento mais descontraído e chill-out, entra no ouvido e espalha-se pelos músculos do corpo. Relaxante e cheio de pequenos pormenores que entram no nosso canal auditivo e que funcionam como pequenas doses de analgésicos. O estado de dormência é selo de garantia.
De seguida o momento alto do Álbum. Dando um seguimento perfeito a «Youth», este título reflecte toda a música. «Electric Feel» é dos melhores temas que tenho ouvido nos últimos anos. É única! Isto é MGMT no seu melhor!
Desde Pink Floyd que os sintetizadores e o efeito psicadélico não eram tão bem trabalhados!
Temos que ter consciência que tratam-se de dimensões bastante diferentes, mas estes rapazes que se juntaram na faculdade para fazer “barulho” estão a abrir caminho para toda uma nova vaga de esperança na música moderna.
O baixo vai buscar referências ao Funk praticado na ultima década, e os efeitos levam-nos a Woodstock ’69 onde certamente fariam sucesso no meio de tantos apologistas da criação do dr. Hoffman.
A sequência final é das mais celebradas ao vivo e percebe-se bem o porquê. Fechem os olhos e deixem-se levar.
Sem parar, o momento mais reconhecido nos dias que correm. Um terceiro single que apenas deixa uma dúvida: porquê terceiro?!
O sucesso foi instantâneo - «Kids» ficou conhecido como banda sonora de um jogo mas também como sendo obrigatória em tudo o que é pistas de dança pelo mundo!
O ritmo é um contra senso para com a letra. Um ritmo mais acelerado que os restantes temas demonstra uma capacidade única de animar a malta! Bate-se palmas, salta-se , dança-se, bate-se o pé, fazemos figuras tristes – acabaram-se as monótonas e ridículas danças de engate, ao som de «Kids» faz-se a festa!
«4th Dimensional Transition» traz algo de novo ao álbum. Uma experiencia mais “espanholada” na guitarra num ritmo alucinante na percussão da bateria. Este tema faz-me lembrar as bandas-sonoras de filmes de Quentin Tarantino, que são tudo menos óbvias. Um tema que lembra os picos dos anos 70… Sintam-se perdidos num Final Fantasy…
«Pices of What» parece caído por acaso na sequência. A guitarra acústica dita um momento mais cru deste Oracular Spetacular. Retomando o ritmo mais acelerado de outros temas, «Of Moons, Birds & Monsters» poderia fazer parte do leque de músicas escolhidas para single.
Uma música bem experimental e progressiva que tira todas as dúvidas que se poderia ter até á altura sobre este álbum. Complicado de se ouvir e gostar nas primeiras audições, soa muito “avant-garde” . E se o álbum em vez de composições simples tivesse seguido por um prisma menos funcional?
«The Handshake» vai buscar um sample base que soa algo a Daft Punk do tempo do Electroma , no entanto, é com a baqueta a embater na bateria que este tema ganha o impacto esperado...e pelo que parece, havia uma nave a pairar o estúdio na altura..
Tal como «Weekend Wars» este tema é cheio de revolta, e de uma politização visível. Um descontentamento sobre o estato das coisas e do mundo que nos rodeia.
Na despedida « Future Reflections» demonstra-se mais indie rock do que outros temas anteriores, será este o futuro dos MGMT?
No final do álbum ficamos com a ideia que falta algo a complementar estes 40 minutos de Oracular Spetacular, será que a magia do álbum passa por aí? Talvez.
Um álbum merecedor de todo o aplauso da crítica que cada vez mais se depara com menos inovação. MGMT é perfeito para quem procura algo de novo, de experimental, de psicadélico , algo que retome de forma futurista os anos 70.


1- Time to Pretend
2- Weekend Wars
3- The Youth
4- Electric Feel
5- Kids
6- 4th Dimensional Transition
7- Pieces of What
8- Of Moons, Birds & Monsters
9- The Handshake
10- Future Reflections

domingo, 7 de março de 2010

Dave Matthews Band – Big Whiskey and the GrooGroux King (2009)


Os fans da banda estavam expectantes quanto ao seguimento que a banda poderia optar face ao destino trágico do mítico LeRoid Moore.

Uma banda conhecida pela qualidade, muito acima da média, num género que tinha tudo para se tornar «pastilha-elástica» de comer e deitar fora. Nunca o foram, e um curriculum com «Ants Marching», «Two Step», «#41» entre muitas outras que poderia referir prova isso mesmo.

Este álbum é alegre, uma celebração de vida e não um luto perante a morte. É a paixão pela música que dita o verdadeiro, e merecido, tributo ao eterno colega.
Desta vez apresentam-se num registo mais leve no que toca aos conhecidos solos e introduções podendo afirmar que se trata dum dos registos mais populares da banda como o single «Funny the Way it Is» com ritmos e quebras como só o sr. Dave Matthews consegue. É genial como consegue apresentar um contra-senso de ideias como a fome e a gula e mesmo assim torná-la leve e despreocupada.

As baladas ao género «Satellite» não ficam á frente duma emotiva« Lying in the Hands of God» que consegue criar aquele arrepio na espinha como só os grandes músicos conseguem criar.
«Shake me Like a Monkey» é dos melhores air-drum da música pop-rock dos últimos tempos, o ritmo é mais do que dançável e contagiante! Dave Matthews num dos seus melhores registos.

É de registar mais uma vez o peso do baterista – sim eu sei que o sr. Poderia ficar ofendido – refiro-me obviamente ao empenho claramente vísivel no trabalho de cada tema, os tempos são por vezes rápidos mas consegue sempre arranjar uma lacuna para deixar o seu toque pessoal - um dos melhores da actualidade – bravo sr. Cárter!

Temos o tributo - «Why I Am» - Não se trata dum «Gravedigger» em termos sonoros, pelo contrário, como disse anteriormente trata-se dum tema rítmico cheio de vontade de explodir em palco, como grande parte dos temas deste Big Whiskey and the GrooGroux King.

«Dive in» é melancólica, dá para ganhar folgo mas sem perder aquela vontade de continuar a viagem pela estrada ao som destes rapazes que já conquistaram o carinho do público português – custou mas valeu a pena!

Num aspecto que Dave Matthews Band sempre se distinguiu do resto das bandas foi na capacidade de conseguir criar momentos emocionantes e de magia pura em directo nos seus concertos, em que cada elemento tem a honra de brilhar. Quem não se lembra dos solos de Baixo no Central Park? «Spaceman» volta a dar ênfase á linha de baixo. Um tema mais contido que acaba com uma entrada de banjo a antecipar o que poderá acontecer em palco…

«Squirm» entra a “gemer”, o folgo parece quebrar, ao longe a guitarra inconformada antecipa algo épico. Isto é Dave Matthews Band! Um tema que não pretende agradar como possivelmente os dois primeiros pretendem mas que consegue captar em sintonia a banda na sua totalidade, o break final é genial – a banda que se atreve a fazer versões de «All Along the Watchtower» não perdeu o jeito de forma alguma. Pelo contrário. Este é o tema mais progressivo do álbum, e justifica-se. Mágico.

O estilo sulista é retratado da melhor forma em «Alligator Pie», o Banjo encaixa muito bem mesmo. Um tema para fazer a festa e relembrar a todos que este álbum não é insonso mas cheio de picos altos!

Ironicamente «Seven» apresenta-se na 10ª posição da grelha do alinhamento deste Big Whiskey. A sua estrutura é algo linear, um «Shake Me Like a Monkey» mais contido mas igualmente maravilhoso. Menos energético, mas mais rítmico, dançável.

Um dos momentos mais inesperados desde álbum é sem dúvida «Time Bomb». Que bomba sem dúvida. O rastilho é sereno, introspectivo, a calma antecede a tormenta. Que estrondo! Que vontade de rebentar! Muito boas bandas de rock pesado andam por aí sem um único momento de energia pura como o break final deste tema- belo e estrondoso. Dave certamente andou a cházinhos o resto do dia…

O que mais estará para vir? - poderá o ouvinte estreante pensar. A Harmonia de «Baby Blue», uma banda sonora para aqueles momentos de silencio que dizem tudo. Um momento de inspiração. Um momento de paixão.
«You & Me» está longe do sucesso dum certo tema pop com o mesmo título que muito rodou nas rádios. No entanto, dá continuidade ao tema anterior, assim como «Write a Song» – mais trabalhadas e num formato mais apelativo, sem dúvida, mas nunca tropeçando na sonoridade da banda.

A despedida cabe a «Corn Bread», mais uma vez com o banjo a provar uma certa importância pouco vulgar nos dias que correm. Um tema de qualidade mas de certa forma sem o risco demonstrado nem o espírito de aventura doutros tempos. Onde andam os «Tripping Billies» ou os «Jimi Thing» de outros tempos? Dave Matthews Band demonstram-se algo carentes de clássicos, mas crescentes num panorama de visibilidade e de procura de novos rumos na carreira.
Estava na hora de se afirmarem, e se ainda havia dúvidas, foram tiradas- GrooGroux é uma nova oportunidade para quem ainda não se tinha apaixonado com esta banda fantástica.


1- Grux
2- Shake me Like a Monkey
3- Funny the Way It Is
4- Lying in the Hands of God

5- Why I Am
6- Dive In
7- Spaceman
8- Squirm
9- Alligator Pie
10-Seven
11-Time Bomb
12-Baby Blue
13-You and Me
14-Write a Song
15-Corn Bread

quarta-feira, 3 de março de 2010

Alice in Chains - Dirt (1992)


Layne Stanley partiu mas os Alice in Chains ficaram. No entanto, é da homenagem ao passado que eles sobreviviam até á bem pouco tempo com o lançamento de Black Gives Away to Blue. Dirt é uma das razões pelo qual os fans ainda celebram os tempos áureos da banda de Seattle.
Tinhamos Nirvana com Nevermind, Soundgarden com Superunknown , Stone Temple Pilots com Core ,0 Pearl Jam com Ten e claro, Alice in Chains com este álbum. No conjunto estes tornaram-se pilares de todo um género e de toda uma geração de jovens alienados. Um pós-punk que buscava os temas mais sombrios para enaltecer a sua raiva.
Este álbum ao contrário dos restantes, é baseado em riffs mais pesados e menos concentrado na velocidade dos temas. O som característico dos Alice in Chains passa muito pela guitarra de Jerry Cantrell que para além de compor, escreveu as letras que ficariam eternamente ligadas á voz de Stanley.
É um álbum confuso e possivelmente depressivo, nada simples. É um álbum sentido e das melhores camisolas do grunge.
Ao som de um clássico, «Them Bones» abrem-se as hostilidades… Demonstra um ritmo algo acelarado para o que a banda nos habituou ao longo da carreira, no entanto é dos temas mais celebrados ao vivo e compreende-se bem o porquê.
“Bad dreams come true” é apenas uma passagem da composição do mítico líder e guitarrista Jerry Cantrell que fala de todo um medo pelo que vêem ,ou não num pós-vida, ou se preferirem, morte. O Riff é dos mais importantes. O Solo é algo de genial, tal como o refrão, é um grito sentido, um rasgo de emotividade.
Num momento mais directo e despreocupado, «Tham That River» dá a conhecer uma briga com Sean Kinney, baterista da banda. O tom de voz é elevado, puxando pelas cordas vocais de Stanley . Esta vem arranhada bem á 90’s…Perfeita. Directa e sem rodeios, esta música demonstra uma combinação perfeita entre os riffs do guitarrista, o choque de pratos de Sean Kinney e o peso do baixo de Mike Starr.
Este último dá início ao tema que se segue. Cheio de distorção, e algum psicadelismo pingado em gotas de Heavy Metal. Cabe ao baixo toda a tonelada de peso deste tema sentido agora, depois da morte do vocalista. « Rain When I Die» apresenta créditos divididos entre as duas caras famosas da banda à altura. Para muitos um dos melhores momentos vocais.Este é o único tema composto na totalidade da banda.
Marcado pelos contratempos e pelos melhores breaks de bateria do álbum, «Sickman» revela um trabalho de produção fantástico. “What a hell am I?!” é mais um exemplo do sentimento alienado, pondo tudo em causa.. O mundo dos Alice in Chains é feito de correntes, como o nome indica, e a heroína é como sabemos uma delas, possivelmente uma referência ao estilo de vida complicado do vocalista e referente à sua dependência. É bonito e medonho, aterrador por vezes, este tema seria possivelmente um aviso para o fim trágico, já algo anunciado de Layne Staney.
«Rooster» é completamente arrebatador…
A introdução é calma e feita de certa forma envolvente. Esta é uma homenagem sentida ao pai de Cantell. Uma brecha de esperança ilumina todo um álbum envolvido em sentimentos de depressão. Deixando o rock mais directo, esta retrata mais uma power ballad envolvida num trabalho de riffs e de solos minuciosos mas onde os carris são sem dúvida as linhas de baixo de Starr.
«Junkhead» retoma os riffs ao estilo Seattle, numa sequência que se assemelha a algo como um «In Bloom» da banda de Kurt Cobain em Delay e em baixo-tempo… Tommy Iommi certamente gostará de ver o seu trabalho reconhecido quando se verificam referencias claras a Black Sabbath na composição deste tema. Pesado no que toca aos riffs poderosos que muito se assemelham aos dos criadores de «Iron Man», extremamente influente na formação do guitarrista dos Alice in Chains.
«Dirt» é como os ingleses dizem: Bad-Ass. Mais uma vez a temática do vício perdido na heroína. Layne torna-se cada vez mais consciente da sua situação. O Riff inicial é diferente de tudo e chama a atenção pelos seus efeitos de delay. Em ritmo baixo este é um dos temas mais sentidos do álbum, e não é por acaso que dá o nome à capa. “You…you are so special..”
Um dos temas mais subvalorizado da carreira da banda.
«God Smack» encaixava com certa facilidade num álbum de Stone Temple Pilots, o tom de voz está extremamente parecido com o de Scott Weilland, assim com o registo musical a tender para algo mais melódico em termos vocais e mais hard-rock no que toca ao excelente trabalho do baterista. Até os solos em ponte fazem relembrar alguns géneros alternativos ao grunge na altura…A banda Godsmack retirou deste tema o seu nome, mas isso pouco importa.
«Iron Glam» dá um toque humorístico á coisa. Tom Araya dos Deuses do Trash-Metal, os pesados Slayer, foi convidado para celebrar um dos riffs que fiz referência anteriormente - «Iron Man». Este era constantemente tocado pelo guitarrista para desespero da banda. Como tal decidiram incluir este efectuar uma pequena troca de palavras…
«Hate to Feel» abre o seguimento mais pesado do álbum, fazendo de certa forma relembar uma espécie de Led Zeppelin mas com uma carga negativa acrescida. Esta retrata a relação pai e filho, contado na primeira pessoa por Layne Stanley , também ele filho de um pai “agarrado” á heroína. Algo que viria a ditar toda a sua vida.
«Angry Chair» é o momento mais pesado, quase 5 minutos de headbanging cheio de grandes momentos convertidos através das baquetas de Kinney. “I Don’t mind….”
A letra é mais uma vez um grito de revolta. O baixo marca uma linha a puxar para um Metal algo alternativo, um pouco na onda black-metal… Atenção mais uma vez para a produção na voz de Layne Stanley.
«Down in a Hole» arrepia, do início ao fim. Há qualquer coisa neste tema que é profundo demais, que puxa por sentimentos de nostalgia, de saudade, de medo e receio. É belíssimo do inicio ao fim e a entrega da banda é total. Layne Stanley eternizou este momento, tal como Kurt Cobain o fizera com o “ultimo olhar” («Where Did You Sleep Last Night?) no famoso programa MTV Unplugged.
Hoje em dia, já sem o vocalista presente, este tema é cantado de lágrima nos olhos por milhares de fans pelo mundo fora como se um tributo se tratasse.
O momento mais calmo do álbum, porventura mais deslocado, no entanto a perfeição cria a desculpa mais do que necessária.
«Would» termina da melhor forma. A introdução de baixo é possivelmente a melhor do género, o tom sombrio do tema e o rasgo no refrão é simplesmente arrebatador. Qualquer fan do rock dos anos 90 fica arrasado com este tema. Esquizofrénico, doentio, depressivo.
Cabe a Cantrell os versos, que ecoam na cabeça, de rompante entra Stanley num dos melhores momentos da carreira dos Alice in Chains.
É a relembrar o final trágico de Andrew Wood dos Mother Love Bone, vítima de overdose de Speed-balls (uma mistura bombástica de Heroína e Cocaína) que se chega a este incrível tema. Curiosamente
é "graças" a este acontecimento que o mundo teve a honra de conhecer os Temple of a Dog que juntava Chris Cornell a Eddie Vedder e ao que viria a ser os Pearl Jam mais tarde.

«Into the flood again
Same old trip it was back then
So I made a big mistake
Try to see it once my way»

São versos em tom de desespero.
Ironicamente a pergunta ficou no ar:

«If I would, could you?»

Para além do cheque mais chorudo da banda, este álbum reflecte um pouco a alma introspectiva e alienada dos Alice in Chains. Reflecte também a essência do Grunge. Dirt é mais do que uma obra obrigatória na discografia dos últimos 20 anos.


1- Them Bones
2- Dam That River
3- Rain When I Die
4- Down in a Hole
5- Sickman
6- Rooster
7- Junkhead
8- Dirt
9- God Smack
10- Untitled
11-Hate to Feel
12-Angry Chair
13-Would?

terça-feira, 2 de março de 2010

Red Hot Chili Peppers - Californication (1999)


Red Hot Chili Peppers são um fenómeno de originalidade e de sucesso incontestável. O seu rock puxa pelo funk , pelo punk e até mesmo por algum psicadelismo. O baixo ganha novos contornos nas mãos do super- Flea , a guitarra ganha um novo toque cristalino nas mãos de John Frusciante e tudo fica espectacular na voz do furacão Anthony Kiedis .
Californication é a prova de tudo isso.
É no final da década de noventa que os RHCP se cimentam como músicos reconhecidos mundialmente. Depois de temas de grande sucesso como «Give it Away» e «Suck My Kiss», e muito graças ao hino dos tempos modernos - «Under the Bridge»- todos eles temas do fantástico Blood Sugar Sex Magic , a banda «sai-se» com este fenómeno de vendas numa reunião de músicas todas elas pré-datadas como possíveis singles!
Entretanto tinham passado qualquer coisa como 8 anos. Frusciante tinha abandonado o barco em 92, sendo substituído por Dave Navarro, hoje um autentico jet-set da cultura MTV, conhecido na altura pelo trabalho nos Janes Addiction.
One Hot Minute intervalou esses aninhos mas o resultado não agradou aos fans e muito menos á banda. Pouco mais do que «Aeroplane» e «My Friends» se retira desse álbum.
O mítico guitarrista, Frusciante, entretanto caiu no vício da heroína que para além de ter estoirado a sua fortuna esteve muito perto de a pagar com a sua própria vida.

Californication representa a importância de uma segunda chance. Salvou-lhe a vida e salvou o futuro incerto da banda.
«Around the World» entra seco ao primeiro toque de baixo. O aviso é lançado e Flea entra de rompante numa entrada a 200 km/h. “All Around the world we can make time”, a voz de Kiedis demonstra-se melhor do que nunca, graças ao vocalista e ao incrível produtor Rick Rubin. Esta música é o primeiro passo duma futura «Can’t Stop» dando uma importância ao baixo (algo invulgar na maioria das bandas) criando um efeito alucinante que funciona às mil maravilhas nos concertos, levando o público ao delírio total. O Funk dançável dá lugar a um refrão harmonioso e orelhudo fechando com a banda em força bruta num rock’n’roll puro e duro. Já se tinha saudades de John Frusciante, e ao final do primeiro tema percebe-se bem o porquê.
Num segundo tema verifica-se um afastamento das linhas sonoras que definiam os Red Hot até á altura. «Parallel Universe» é um dos meus temas favoritos da banda, demarcado pela distorção da guitarra nos seus riffs esmagadores e seguido num pall-mute ensurdecedor na sua estrutura base. «Christ, i’m a sindewinder, I’m a California King!». O formato das músicas neste Californication está cada vez mais direccionado para o formato pop-rock de massas, mas sem baixar um cm na qualidade. Verso+refrão+verso+refrão+ solo+ refrao , elementar mas que funciona sempre, melhor que o 4-4-2.
O fade-out dá entrada a uma das introduções que faz desesperar os milhares de fans da banda. « Scar Tissue» é delicada, é límpida, é como água cristalina. Transpira o formato Fm e é perfeita para se ouvir na Marginal à beira-mar. «Scar Tissue that I wish you saw…»
A busca de duas notas algo distantes na linha da guitarra e uso visível do Slide-guitar criaram solos belíssimos e muito originais. Mudança mais do que visível nas técnicas adoptadas pelo guitarrista recém chegado pela segunda vez… O público teve uma recepção mais do que positiva e abraçou-o como um dos seus maiores sucessos de toda a carreira da banda.
Tal como o tema anterior, «Otherside» é um hino de sucesso que desabafa toda a vivência de drogas e de outros vícios ganhos ao longo da sua carreira.
Um tema que até teve desculpa para usar nas pistas de dança pelo mundo fora é no entanto um registo mais intimo que começa no acoustico mas que ganha vida ao compasso de Chad Smith na bateria. Sempre sem fugir demais ao registo, a sua técnica passa por deixar tudo bem simples e perceptível. O bater do pé é crescente até ao refrão mais do que decorado! A entrada dupla de Flea e Frusciante a entrarem no solo é feito numa simbiose total!
O back vocal do guitarrista é reconfortante e mais uma vez A. Kiedis entregasse de alma e coração.
«Get on Top» não deixa que os fans mais antigos saiam decepcionados. O Funk e o super-Flea sobressaem. “Right On…” O carimbo RHCP está posto e o selo de qualidade está mais do que tatuado. Um tema que vai buscar referencias a «Suck My Kiss». Enérgico e convidativo como só eles sabem fazer. O contraste de sons cria algo muito em conseguido.
Faith No More e Janes Addiction também foram buscar referências mais alternativas ao funk misturando no seu rock de origem, no entanto é de realçar que todos conseguiram resultados bastante distintos sendo cada um deles casos de sucesso num género ainda muito pouco explorado.
O tema título ganhou fama pelo vídeo que teve direito a “algumas” respeitosas passagens pelas televisões de todo o mundo. Aquele do vídeo-jogo diria eu…
A taça deste álbum vai de facto para John Frusciante. Mais do que viciante. Mais um hino dos trovadores da California e possivelmente dos maiores publicitários do Estado norte-americano!
«Californication» é um apelo à reflexão sobre o mundo ocidental, sobre o estado das coisas, sobre o mundo sombrio por detrás das luzes de Hollywood num mundo de referências que vai desde Kurt Cobain ao Stark Treck, visível na letra da música. Retrata um mundo de falsidade e de desespero. Arrisco-me a dizer que é a música mais bem sucedida da banda. Se não é, é certamente a que teve mais importância e peso na sua carreira e no sucesso dos RHCP.
Facilmente nos rendemos a este «Easily» que segue uma onda mais fluida rasgada numa guitarrada, “Lets get married today!” convida a banda a entrar num air-drum com Chad Smith.
Se «Scar Tissue» e «Otherside» revelam uma nova perspectiva duns Red Hot mais conscientes e maduros, «Porcelain» demonstra a entrega total. Num falsete memorável, Anthony Kiedis, eternamente lembrado com um furacão em palco, muda de registo numa melodia que faz lembrar «Something in the Way» do mítico Nevermind dos Nirvana. Se resistiu à “moda” Grunge, não resistiu a entregar-se como outrora Kurt Cobain , Eddie Vedder e até mesmo Billy Corgan dos Smashing Pumpkins o fizeram. Este ultimo era ponto de referencia perante a crítica que recebia com alguma surpresa este álbum.
«Emit Remmus» dá seguimento à linha musical de «Easily» com alguma concentração de esforços nos breaks de bateria e nos riffs de influências punk á la Iggy Pop.
«I Like Dirt» assim como «Right on Time» e «Purple Stain» demonstram as raízes da banda bem definidas, e revela vertentes mais psicadélicas, mais punks e até mesmo mais direccionadas para um hip-hop baseado num Groove Soul. Em todas as linhas de baixo montam a estrutura.
«Savior» faz lembrar o tom de Brandon Boyd dos Incubus e juntamente com «This Velvet Glove» abraça o momento mais “soft” do álbum, menos apontado para os singles de sucesso e mais focado no fluir de temas.
O punk de «Right Now» é introduzido pelo clássico dos The Clash, «London Calling», um dos riffs mais famosos vindos do Reino-Unido, no seu dvd Live in Slane Castle e pena temos nós de não ter sido gravado no álbum. Encaixe perfeito. O momento de maior loucura do álbum é contrastado pela confirmação dos dotes vocais do retornado e vencedor John Frusciante – Eternamente na memória dos portugueses pela interpretação de «How deep is your love?» dos Bee Gees em 2006…
«Road Trippin’» fecha o álbum à volta da fogueira no momento de despedida. Chad Smith dispensado da bateria pois o ritmo, como música de final de tarde que se prese á beira-mar é feita com a bela da guitarra acoustica.
A leitura que faço deste tema é mais de um lamento do passado e dum positivismo perante o futuro. As referências ao complicado relacionamento com as drogas são mais uma vez referidas, “Staying high and dry’s, more trouble than it’s worth», no entanto o convite é lançado mais uma vez, “lets go get lost”. Perder do passado que arrastou os Red Hot Chili Peppers para muito perto do abismo. Californication prova que conseguiram.


1- Around the World
2- Parallel Universe
3- Scar Tissue
4- Otherside
5- Get on Top
6- Californication
7- Easily
8- Porcelain
9- Emit Remmus
10-I Like Dirt
11-This Velvet Glove
12-Savior
13-Purple Stain
14-Right on Time
15-Road Trippin'

segunda-feira, 1 de março de 2010

Led Zeppelin - Led Zeppelin IV (1971)


No início da década de 70 nomes como Robert Plant, Jimmy Page, John Paul Jones e John Bonham não eram de todo estranhos.
Até lá, temas como «Whola Lotta Love», «Ramble On», «Immigrant Song» assim como o instrumental «Moby Dick» eram reconhecidos e aplaudidos tanto pela crítica como pelo público, em especial para o fenómeno das groupies que teve o seu auge muito graças a estes icons do Hard-Rock.

Led Zeppelin IV, como hoje em dia é (re)conhecido é a confirmação perante a crítica de uma das melhores bandas de todos os tempos.
Se nos anos 90 tinhamos um Deus na guitarra chamado Slash, nos anos 70 tinhamos um autêntico Zeus no cimo do Monte Olímpo agarrado á sua Gibson Les Paul. Guitar-Hero devia ser definição de Jimmy Page.
Robert Plant por sua vez representa o futuro de um frontman que conquista não só pelo seu talento incotestável como pelo seu sex-appeal bastante apelativo para as fans.
Por outro lado, John Paul Jones representa a multi-faceta de músico. Um autêntico polivalente na banda, tendo como base o baixo e deixando para o espetacular John Bonham a responsabilidade da bateria.

Esta formação de luxo estava no auge da sua forma e de criatividade, e este álbum explica isso mesmo.
Num formato vocalista vs banda, «Black Dog» apresenta um registo bastante curioso visto que os seus tempos e o seu ritmo inconstante deu num dos riffs mais conhecidos da história do Rock.
Os créditos ao contrário do que muita gente pensa, não vão para Page mas sim para J. Paul Jones que na procura de algo mais inconstante e menos dançável criou este incrível riff que se repete intervalado pela belíssima voz de Robert Plant... ah ah ahhh humm.... Oh Yeah! Baby! Isto é Hard Rock no seu estádo Natural! Se «Immigrant Song» anunciava os primórdios do Heavy Metal, como mais tarde «Kashmir» vinha a comprovar, este tema anuncia o género que viria a ditar o futuro da música nos 20 anos seguintes...
«Black Dog» é um título algo a tender para o non-sense total, algum humor avant-guard para a altura. Consta que Robert Plant montou a sua parte em dois takes apenas...
Sem dúvida um Joker lançado na primeira jogada. O tema seguinte não dá treguas, e desta vez o mérito é mesmo de Jimmy Page.

«Rock'n'Roll». E nada melhor poderia intitular esta música! O Blues Rock, aquele que automáticamente activa o modo swing, é mais do que visível! «Its been a long time since I rock'n'roll!!» enaltece o vocalista.
A voz de Robert Plant está simplesmente perfeita e a linha de baixo monta toda uma estrutura que relembra passagens entre os anos 50 e 60 onde os Led Zeppelin foram buscar referências.
Boham não dá descanso aos pratos da bateria, mas quem é rei e senhor é mesmo Page... Os seus riffs são viciantes e perfuram o nosso canal auditivo sem qualquer tipo de aviso. O corpo responde numa tentativa de air-guitar, simplesmente fantástico.

Estão familiarizados com o bandolim? É uma espécie de cavaquinho usado normalmente em temas mais folk, algo mais liguado á música tradicionalmente nórdica... algo que tradicionalmente nenhuma banda de grande estatúto usa...
Pois bem, os Led Zeppelin deram-se ao luxo de arriscar neste «The Battle of Evermore». Desligaram os amplificadores e agarraram-se a um som mais "natural" optando por seguir viagem em acoustico...
Um tema que possívelmente serviu de inspiração a bandas como Blind Guardian, eternos perseguidores das fábulas fantásticas onde duendes viram heróis na luta contra dragões e afins...
Recorde-se que nessa altura já o Tolkien tinha feito das dele, mesmo sem o Orlando Bloom...

Confesso que escolhi este álbum por este momento em concreto. Se é difícil escolher uma banda para entregar o prémio de melhor de todos os tempos, pior ainda fica a situação quando se procura o melhor tema de todos os tempos. O mais completo, influente , espetacular...
A minha escolha é este 4º tema deste 4º álbum de estúdio dos Led Zeppelin. Sem surpresa, «Stairway to Heaven» seria a minha escolha.
Se este tema fosse um livro seria uns' Lusíadas ou uma Odisseia.

O que haverá para dizer para além do que já fora dito ao longo de 40 anos?! Trata-se de um dos temas mais progressivos da banda, moldado por fases, tempos e tons diferentes ao longo do seu percurso.Um tempo que se constroi a pouco e pouco tornando-se cada vez mais involvente.
Uma primeira introdução demonstra os acordes a acoustico de Page num dos seus melhores momentos de criatividade.
Cada nota que saí parece criar uma atmosfera de espectativa...
Da flauta saíem notas que relembram da idade mediavál uma serenata.

«There's a lady who's sure,all that gliters is gold and she is buying a stairway to heaven...»

Ao som das primeiras palavras de Plant a rendição é inevitável. Muitos dirão que o sucesso deste tema passa mesmo por não ter sido single. Outros vão buscar o interesse do público no suposto verso satânico encotrado se ouvirmos a música de trás para a frente... o que é certo é que este fora o tema mais requesitado nas rádios pelo público dos anos 70, assim como pelas editoras que viam neste tema diamante em bruto. De forma a proteger os interesses da banda e do projecto em si ( a totalidade do álbum IV) isso nunca aconteceu. A magia reside na mesma.

«If There's a bustle in your hedgerow
don't be alarm now
it's just a spring clean
from the May queen»

É o mote da polémica que ainda hoje faz as delícias através do youtube.

O ritmo aumenta, este é o Hino.
O rasgo de loucura dum rock extravagante é sentido a meio do tema que rebenta com as colunas e bombeia o coração mais rápido do que o recomendável. Jimmy Page no seu melhor. Ao vivo para sempre lembrado com a sua double-neck da Gibson EDS, isto sim é um guitarrista!
Num dos melhores solos de sempre da história do rock, o guitarrista dos Zeppelin não poupa ninguém os outros elementos não se deixam ficar para trás.

«Mistin Mountain Hope» retoma o ritmo mais dançável, curiosamente mais funk... Uma referencia ao consumo dos ditos cigarritos para rir segundo alguns "interpretes" mas o que é certo é que se trata de um grande momento entre o baixista John Paul Jones e o baterista John Bonham. «Four Sticks» é reconhecida pelo uso de 4 baquetas na bateria e pela extrema difículdade que a banda teve em gravar este tema incrivelmente mágico. A subtileza destes ultimos temas contrasta com a garra dos primeiros.
No entanto é de reparar que este riff têm algumas semelhanças com o de «Rock'n'Roll».

«Going to California» é mais um grande momento graças aos dotes vocais de Plant que retoma o estilo folk que demarcava o 3º tema do álbum.

Os Led Zeppelin despeden-se deste àlbum clássico curiosamente com uma cover de Kansas Joe McCoy and Memphis Minnie, «When the Levee Breaks» que se destaca pelo trabalho de bateria de Bonham que marca o ritmo da música com o volume um pouco mais elevado deixando que a guitárra de Page se ouça mais ao longe dando destaque aos vocais que se demonstram capazes de efectuar mudanças de verso a verso com rasgos que caracterizam a banda e que se distinguem de tudo o resto.
Led Zeppelin no seu melhor.

1- Black Dog
2- Rock and Roll
3- The Battle of Evermore
4- Stairway to Heaven
5- Misty Mountain Hop
6- Four Sticks
7- Going to California
8- When the Levee Breaks

Pink Floyd - The Dark Side of the Moon (1973)


Pink Floyd é sinónimo de qualidade, de distinção, de megalómania, de inovação e de originalidade.
Numa palavra eu diria únicos. Será sempre um risco elaborar tabelas qualitativas pois serão eternamente subjectivas, mas se me perguntassem qual a melhor banda de todos os tempos eu responderia o seu nome.
A sua impressionante discografia e invejável carreira ditam isso mesmo. The Dark Side of the Moon dita os números que o comprovam.
Este é simplesmente o 2º álbum mais vendido da história, apenas ultrapassado pelo recordista de vendas Thriller do rei da pop. Mais impressionante (se isso é possível) é o facto de este ter permanecido nos «charts» qualquer coisa como 741 semanas! Desde 1973 a 1988! Resultado? Uns impressionantes 45 000 000 discos vendidos!

Dos estudios de Abbey Road, eternamente ligados ao quarteto fantástico de Liverpool, os Beatles, saiu este pico na história dos Pink Floyd de David Guilmor, Roger Waters, Rick Wright e e Nick Manson.
Posterior ao muito progressivo Meddle, que explorou caminhos ainda hoje algo confusos mas eternamente fascinantes, Roger Waters sentiu que algo devia mudar. As palavras tinha de chegar ás pessoas de uma forma mais directa.

«Speak to Me» é uma espécie de introdução ao álbum passando, através de pequenos pormenores e efeitos sonoros, por certos pontos do álbum. O toque psicadélico e progressivo é fácilmente perceptível logo à primeira audição. O efeito transe é resultado da mestria demonstrada pelo falecido Rick Wright nas teclas e no uso divinal que os Pink Floyd deram aos sintetizadores.
Provando que a música não têm barreiras, e que a sua mensagem vai para além do empreendorismo hippie atravessando momentos de autêntica Filosofia, este tema com duas frases apenas anuncia uma epopeia de outro Universo.

«I've been mad for fucking years, absolutely years. I've been over the edge of yonks. Been working me buns off, 'till i went crazy...
I've always been mad, I know I've been mad, like the most of us are. It's very hard to explain why you're mad, even if you're not mad.»

Dá-se o primeiro suspiro e entra-se na nova dimensão. Na dimensão do abstrato mundo dos Pink Floyd.
O uso do slide guitar envolve-nos de forma a cair num mundo de dormencia total... o cérebro é bombardeado por sons e efeitos que estes criam na sua audição. O background psicadélico deu lugar a um sentimento algo budista, chegamos ao Nirvana!

Muito rápidamente esse sentimento muda ao som do compasso apressado de «On the Run». Esquisofrénico no mínimo, é como se pode descrever este tema que poderia ser incluído num filme de Stanley Kubrick. Mais uma vez os efeitos sonoros criam uma envolvencia total dentro do álbum. The Dark Side of the Moon é uma novela abstrata que não se escuta mas que se vive, que se sente.
Os compassos e os tempos não são habituais, mas nada nestes senhores é simplesmente «habitual» ou comum.
Ao longe ouve-se os ponteiros do relógio...

«Time» apresenta um grande momento de criatividade de David Guilmor na sua famosa Fender. Sem medo atira-se para um dos melhores solos do álbum. A sequência introdutória é simplesmente um golpe de génio. A simples percepção dos sons mais comuns e familiares demonstra a genialidade da composição.
O alarme fora activado: abram os olhos para a vida!

«And then one day you find ten years have got behind you
No one told you when to run, you missed the starting gun»

A mensagem nunca fora tão directa em toda a sua carreira. As palavras de Roger Waters caem na perfeição no mundo apoteótico de sintetisadores e de efeitos nunca dantes assimilados pelo público geral.
A mensagem é alarmista mas de certa forma cria um efeito «flutuante»... somos mais uma vez embalados no slide de David Guilmor que antecede um dos melhores instrumentais de todos os tempos e uma autentica celebração da vida e dos sentimentos que a compõem.
«The Great Gig in the Sky» é um privilégio á audição. Simplesmente maravilhoso do principio ao fim.
Um dos mais conseguidos da banda em toda a sua incrivél carreira.

Ao som de moedas a cair, de slot-machines tipicamente relacionadas aos casinos e uma referência á sociedade consumista, «Money» é o abrir de muitas portas no caminho ao mega-sucesso dentro do rock mainstream.
A critica é mais do que obvia. Tudo gira á volta dele. Resume os objectivos de vida e a critividade humana. Limita-nos.
A sequência da guitarra ritmo é viciante, o delay e o efeito resonancia é incrivél, dando um tom muito mais jazzy e ritmico. O compasso é algo invulgar, uma sequência de 7/4. Numa onda mais Blues e menos psicadélica, este tema é incontornável na escadaria do sucesso dos Pink Floyd. Possivelmente o tema mais reconhecido comercialmente a par de Another Brick pt.2 .
O seu solo é duma composição genial, e a contribuição do saxofóne é brilhante.
Este foi o primeiro single deste álbum e fácilmente se atribui grande parte do sucesso de vendas a ele próprio. Começava aqui a politização dos Pink Floyd perante o mundo e a sociedade que os rodeava.
Por incrivél que pareça este é o unico tema do álbum a fazer parte dos top 20 de singles nos EUA.

«Us and Them». O momento mais introspectivo do álbum. É suave e melancólico e prime pela harmonia de sons e de ecos vocais de David Guilmor. «...we're all ordinary man» resume-se nas suas palavras.
É o momento mais prolongado do álbum, mantendo uma estrutura estável com picos pelo meio de onde se destacam os back vocals que criam grande parte do ambiênte para o qual os Pink Floyd nos tentam enviar. É de facto um ponto a destacar. Os efeitos vocais não ficam nada atrás aos dos sintetizadores que parecem não ter barreiras. Sem dúvida um tema belíssimo.

«Any Colour You Want» é uma das metáforas apresentadas, desta vez sem o contributo de Roger Waters, habitualmente digno dos créditos da banda.
Uma contribuição que quase se poderia dizer que seria Guitarra vs Sintetizador, mas a conjugação é perfeita. Repare-se num fade-out a relembrar «Breath»...

«Brain Damage» volta a brincar com os ecos de fundo, num registo mais profundo ao qual parece haver algumas referências ao falecido companheiro Syd Barret, o possível "Lunatic". Este tema que dá nome ao álbum ( " see you on the dark side of the moon") é das primeiras provas da capacidade vocal de Rogers Waters, que mais tarde iria levar a cabo o histórico concerto em Berlim em 90 num pós-queda do muro.
«Eclipse» dá seguimento á composição chegando á recta final.
Ao fim da audição de Dark Side of the Moon sente-se que se emoldurassem estes temas, teriamos um Museu Guggenheim na cabeça. The Dark Side of the Moon é um pedaço de arte, de história e de simples magia.


1- Speak to Me
2- Breath
3- On the Run
4- Time
5- The Great Gig in the Sky
6- Money
7- Us and Them
8- Any Colour You Want
9- Brain Damage
10-Eclipse