
Em Outubro de 2000, Zack de la Rocha, vocalista dos rebeldes Rage Against the Machine, anunciava a sua saída para envergar num projecto a solo.
O mundo parou: o suposto fim dos RATM assim como doutras bandas ; o desvanecer do grunge ; o prevalecimento do Nu-Metal, (que vinha abalar o mundo metaleiro com as influencias no Hip-Hop, em alguma electrónica e num conceito de música rock simplista-o- sintetizada); … O Rock estaria a morrer?
Nunca.
Talvez a introdução seja um pouco extremista, mas a verdade é que num curto espaço de tempo sentiu-se um vazio pouco esperançoso quanto a futuras surpresas.
Em 2002 , algo de inédito acontecia – o icon grunge e sex simbol dos anos 90, Chris Cornell, largava o seu projecto a solo (pouco sucedido face aos resultados nos Soundgarden) e juntava-se a uma formação de luxo, Tim Commeford no baixo, Brad Wilk na bateria, e a cargo da guitarra o virtuoso Tom Morello.
Juntava-se assim o Hard Rock próprio da voz do Chris Cornell, rasgada e inconfundível, ao som da descarga eléctrica que caracterizava os Rage. Formação de luxo.
Duas major labels a negociar o que vira a ser conhecido por Audioslave, algo de espectacular na indústria musical! Uma “fusão” de dois ícones á escala mundial dos últimos anos.
Desde cedo uma novela… se dum lado a expectativa era muita, do outro às más-linguas apontavam objectivos como obtenção de dinheiro fácil numa altura em que ambos estariam numa fraca fase criativa.
A verdade é que Audioslave, álbum homónimo, saiu e foi um sucesso de vendas. Por outro lado, a crítica não cedeu e mostrou-se dura na recepção á banda nos trabalhos originais.
Ao contrário da crítica geral, eu vejo este álbum como uma tentativa de distanciamento dos antigos projectos, sendo que essa possa ter sido mal interpretada por muitos fanáticos das antigas sonoridades - completamente compreensível diga-se!
O som demonstra-se de certa forma original, próprio. No entanto seria difícil enganar o mais distraído dos ouvintes perante as semelhanças e as influencias dos antigos projectos. Semelhanças repare-se.
Rick Rubin a cargo da produção é meio caminho andado para o sucesso. Albums miticos de Slayer a Red Hot Chili Peppers, passando por Neil Diamond e Johnny Cash, Shakira, System of a Down, Linkin Park, Metallica, AC/DC, Smashing Pumpkins, Wu-Tang Clan, Beastie Boys, Run DMC, Limp Bizkit, Kid Rock, LL Cool J, Slipknot… é preciso continuar?!
Toque de Midas no mínimo! Até a banda Sonora do South Park teve a produção deste Sr.!
Ah! … e lá está! Rage Against the Machine!
Depois de Renegades of Funk, Tom Morello e Cª já sabiam como funciona Rubin e como este tenta retirar o melhor de cada elemento colectivizando-o num só. Se por um lado é uma perspectiva muito poética, por outro é aqui que a jovem e experiente formação peca.
Este álbum capta e retrata muito bem o espaço temporal, aliás, a fase inicial da banda. A insegurança de agradar a elementos divergentes, de procurar pontos de equilíbrio que não seriam assim tão indispensáveis torna as coisas menos fluidas e de certa forma forçadas em alguns momentos.
No entanto, não se verifica a queda em tentação de modas emergentes de um post-grunge radiofónico nem de uma procura forçada de algo mais pesado, que muito se temia em toda a discografia dos RATM, que sempre resistiram sem ceder!
Pelo contrário, Audioslave apresenta um conjunto de músicas focadas num hard-rock modernista face aos efeitos genialmente criados por Tom Morello que teimosamente joga ao toca e foge com as linhas de baixo e aos ritmos marcados a negrito da bateria.
E a voz de Chris Cornell? Desde Soundgarden, e do seu clássico Superunknown, que não o ouvíamos em tão boa forma!
«Cochise» desde cedo dá um certo tom de suspense á coisa – o que irá sair daqui?
As influências de algum Heavy-Metal e Hard Rock ao estilo Led Zeppelin encaixam em riffs bem ao estilo que sempre caracterizou Tom Morello como guitarrista.
Uma música que sem cair em excessos, agrada por um certo revivalismo. Simples e sem a densidade e a objectividade que Zack lançava nas suas Punch-Lines.
Este foi o primeiro single e obrigatoriamente um clássico da banda.
A letra revela alguns traços politizados, referencias á luta indígena, curiosamente escrita por Chris Cornell e não por Tom Morello, o eterno inconformado.
Será este o preço a pagar de Chris? “Go on and save yourself
and take it out on me” – é repetida de forma a tornar-se um refrão inevitável de ficar no ouvido.
O segredo no som próprio da guitarra reside no simples e inovador uso da técnica de pedais com um surpreendente… lápis! Helicóptero pensavam vocês? Pois…
O vídeo por sua vez é todo um simbolismo pela nova união. Um celebrar e uma apresentação de velhos conhecidos.
«Show Me How To Live» revela uma vertente mais rasgada, um apelo ao headbanging num refrão despreocupado, que nos faz cair na tentação de ao segundo tema estarmos a afirmar que este se trata dum possível ao rumo desejado dum rock que se quer actual e dinâmico.
Mais um dos temas a terem que ser reconhecidos por qualquer candidato a fan da banda. O efeito Phaser saído do amplificador dá todo um toque de especiaria ao tema, mais contido por sinal, o solo demonstra um novo rumo na técnica de Morello que opta por uma objectividade
som a som, mais uma vez influência de Rick Rubin que gosta sempre de deixar tudo bem perceptível.
Ao som de «Gasoline» sente-se uma certa estruturação do colectivo, numa marcação de tempos sistémicos que não primem pelo épico mas mesmo pela naturalidade com que se deixa fluir. Os rasgos de voz demonstram uma óptima forma de Cornell que mais uma vez não teme puxar por notas mais dificultadas ao “cantor” comum.
Por outro lado «What You Are» aponta uma estrutura mais ao estilo Seattle de outras praias onde o vocalista sem sente mais á vontade. Uma espécie de Power Ballad do novo milénio que mantém o nível rítmico da bateria. A sequência inicial faz de certa forma relembrar «Hells Bells» de AC/DC mas o som em overdrive dos riffs em chorus, ou como quem diz, no refrão, fazem deste tema dinâmico e sem espinhas. O Solo é no mínimo invulgar, e mais um para a caderneta de inovações de Tom Morello que consegue puxar pela originalidade sem se limitar ao braço da guitarra e ao “simples” dedilhar de notas.
O momento inevitável e que dita todo o sucesso da banda numa música chama-se «Like a Stone». Um tiro direito á cabeça. O alvo tinha sido marcado e estava pronto a abater. Um sucesso imediato graças à subtileza letal de solos matadores de guitarra, e linhas de baixo que dão todo um ênfase ao tema. A letra dá vontade de decorar antes de a ouvir! Ou direi escutar?
Um tema longe de ser uma explosão ao nível de RATM e do rock puro e duro de Soundgarden mas que demonstra toda uma evolução de sonoridade na procura de algo novo.
Mais emotivo do que se pensa, este tema não cede ao liricismo banal de amores proibidos e que invadem as rádios mundias, retrata todo o peso da incerteza.
“And on my deathbed I will pray
To the gods and the angels
Like a pagan to anyone
Who will take me to heaven”
A eterna falha dos Audioslave como banda foi a falta de momentos de magia, por assim dizer, na sua discografia. Tudo em regra geral soa bem, mas sente-se falta daqueles picos de loucura criativa que ditam a opinião final e que por vezes conseguem fazer fechar os olhos a muita porcaria…
«Set It Off» retoma o formato inicial de temas como «Cochise», definindo o que viria a ser a sonoridade própria de Audioslave. A linha de baixo procura trazer a sua vertente mais funk, tanto calma como agitada, reflexo de uma produção sem grandes riscos, tomada como certa do inicio ao fim. Convence, nada mais.
Na sombra do Sol Chris Cornell abraça um momento bem Soundgarden «Fell on Black Days» com o peso dum certo preconceito que ridiculamente obriga tudo pós Grunge a ser mesmo Post-Grunge.. «Shadow of the Sun» é um tema que foge á linha de raciocínio apresentada, dando um certo toque de diversidade á coisa. Sente-se todo o potencial ao passar de cada tema, mas nunca um pico de carreira em cada um dos músicos.
Daqui para a frente, a visibilidade dos temas diminuí substancialmente. Sempre regulares, apresentam uma «Exploder» a dar resposta ao tema anterior, uma «Hypnotize» de facto hipnótica e com uma sonoridade que vai buscar as mais improváveis influências eléctronicas que define temas de Trip-Hop como de «Unfinished Shympathy» dos Massive Attack. Um Scratch que já não engana ninguém desde «Bulls on Parade» em que com muita dúvida se lia no álbum que nada mais levada do que guitarra, baixo e bateria na sua composição…
«Bring Am Back Alive» dá peso ao baixo, que fica demasiadas vezes para segundo plano neste álbum, pelo menos na altura de brilhar. Um momento que certamente foi dar razão a muitos prognósticos pessimistas. O que raio estavam a pensar que ia ser o resultado de distorcer de forma pouco ortodoxa?
A sequência final mata o álbum. A verdade é esta. Fica a ideia de algo que conquistariam mais tarde com Out of Exile, mas neste fica muito aquém.
«Light My Way» mostra uma certa falta de originalidade de riffs quer numa fase de introdução quer na fase rítmica cantável… a adaptação ganha contornos algo cansativos e que dão pouca vontade de alargar muito mais a recepção demais temas. Tal como o Sporting de outros tempos, parece que para ganhar basta apostar nos primeiros 15 minutos. Mas tal não cria campeões…
«Get Away Car» está demasiadamente concentrada na obtenção de algo especial, algo que fique eterno. Um bom registo, íntimo e que foge ao álbum por breves minutos. Um solo mais jazzy da banda, que faz deste um registo raríssimo na carreira de cada elemento.
Chris Cornell está longe de ser um Robert Plant, mas á qualquer coisa de doce naquela voz sofrida e desgastada. A melancolia e a ressonância de cada sílaba fazem de « Last Remaining Light» um retardar de prestação de contas banda/público. As dúvidas ficam para depois. Em Audioslave celebra-se o potencial – diamante em bruto - que é ter uma super-banda.
É sem dúvida um álbum razoável que sai completamente lesado pela falta de cariz individual, de uma preocupação desmesuravel em tomar riscos. No entanto, é a história que dita tal opinião. E ela diz-nos que os clássicos já passaram, hoje apreciamos o percurso dos artistas.
O título do álbum reflecte bem o que une a banda. A paixão pela música faz deles escravos na criação de temas que nos enchem de orgulho só de os ouvir. Temas que ainda hoje dão razão aos ídolos do passado. Hoje do presente, e a continuar assim, certamente do futuro.
1- Cochise
2- Show Me How To Live
3- Gasoline
4- What You Are
5- Like a Stone
6- Set it Off
7- Shadow on the Sun
8- I Am a Highway
9- Exploder
10-Hypnotize
11-Brimg'em Back Alive
12-Light My Way
13-Getaway Car
14-The Last Remaining Light
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