terça-feira, 9 de março de 2010

Jeff Buckley - Grace (1994)


Jeff Buckley é um James Dean reencarnado nos anos 90. A sua imagem invoca rebeldia mas a sua música demonstra uma delicadeza extrema. Perder Jeff Buckley foi perder todo um potencial incalculável e que ainda hoje nos faz perguntar: até onde poderia ter ido?
Grace será a sua eterna obra e a nossa eterna dúvida.

Aos 27 anos juntou-se a clube dos astros que cumpriram o prazo de validade como uma estrela. “Live fast, die young”. Jimi Hendrix, Kurt Cobain, Brian Johnson, Jim Morrison, entre outros que formam o clube 27.

Este é o único álbum de estúdio do músico e compositor. Grace tem vindo cada vez mais a ser reconhecido como sendo de culto, não só pela crítica como pelo público, que dentro dele encontra várias referências musicais assinaláveis. Nomes como Robert Plant e Jimmy Page (Led Zeppelin) assim como David Bowie fizeram questão de deixar a sua opinião bem presente, citando que este se trata de um álbum maravilhoso e imprescindível nas listas dos melhores de todos os tempos. Thom Yorke (Radiohead) por sua vez admitiu que um dos maiores hinos da música indie/ alternativa , «Fake Plastic Tree», é composta com várias influências vocais de Buckley.

Da primeira vez que ouvi este álbum tive a sensação que muitos terão, de estar a verificar algo de maravilhoso. Um golpe de genialidade. Humilde e sentido, as suas letras soam sinceras e em tom de desabafo.
Em Grace encontramos um mundo de incertezas dum jovem compositor que foi contra tudo e todos, criando algo de muito próprio, e por irónico que pareça, algo de muito maduro.

Jeff Buckley é um verdadeiro músico. Á música dedicou a sua vida. Da música vêem as suas origens.
É em Tim Buckley que tudo começa. O pai do músico era também ele outro tal, sendo relativamente conhecido. Também ele falecido com apenas 27 anos, nunca manteve uma relação para com o filho desejável, e para compreender Grace é inevitável percorrer o percurso familiar do seu autor.

Não se revelam histórias do passado nem opiniões, apenas sentimentos. O afastamento que Jeff manteve do pai durante anos ditou tanto a sua personalidade como a sua música.
Jeff não queria soar como o pai. Não queria cair na tentação de limitar a sua criatividade. Não queria cair nos mesmos erros …
A heroína roubo-lhe o pai distante. O pai que estava disposto a perdoar mas ao qual deu o seu tributo. Jeff Buckley era «Scotty» Mothead, apelido do padrasto , após a morte de Tim Buckley, este optou por usar o seu primeiro nome e o verdadeiro apelido.

«Mojo Pin» inicia a sequência que tira o fôlego a qualquer um. O tom psicadélico dos versos sussurrantes de Jeff dá lugar a um prolongar dos dotes vocais do mesmo na ponte para o sentido refrão.
Este tema representa toda a envolvência doentia de vícios insaciáveis, das pessoas às drogas.
Consta que tudo começou num sonho, onde Buckley viu um «chuto» entre os dedos dos pés duma mulher de cor sentada no chão.
Se há coisa que «Grace» consegue como poucos álbuns o conseguem fazer, é conseguir recriar os sentimentos da letra através da própria música, fazendo chegar ao ouvinte de forma muito natural e pitoresca.
«Grace» dá continuidade à incrível composição partilhada nestes dois primeiros temas com Gary Lucas. A banda que fica de certa forma á sombra do icon Buckley é de qualquer forma um bem mais do que essencial nesta magnífica produção! Um tema que puxa pela veia mais rockeira do trovador que é acompanhado pelo excelente trabalho de bateria e por alguns “flangers” a dar o efeito de loop ao rebentar da coisa.
Um dos temas mais celebrados e compreende-se bem porquê. Mais uma vez o tema toca e as letras são o estandarte perfeito. Dedicada ao sentimento de imortalidade que a paixão lhe dava, Jeff celebra a vida enquanto pode…
A escolha de temas, a busca de inspiração nas pequenas/grandes coisas da vida… a forma como as torna possível – tudo isto prova a genialidade dum jovem com pouco mais de duas décadas. O risco que tomou faz dele um herói da música contemporânea.
«Last Goodbye» é um verdadeiro rasgo de música pop-rock de qualidade. Se do outro lado do pacífico estamos habituados a tudo em grande, tudo bem Hard Rock, JB representa a simplicidade como fórmula de sucesso. Um tema que muito boa gente gostaria de ter composto ainda nos dias que correm. A ele se entrega o prémio do tema mais aplaudido da banda como single. Os riffs orelhudos deixam escapar os agudos de Jeff que soam incrivelmente seguros.
A voz é cristalina e não falha uma única nota. Desafia as suas capacidades a cada compasso e não teme cair na histeria. Uma das melhores vozes de todos os tempos, não haja qualquer tipo de dúvida.
Esqueçam qualquer balada que ouviram até ao primeiro segundo deste tema. Escondida numa certa timidez, «Lilac Wine» demonstra a verdadeira noção de fragilidade e de beleza, pura e incorruptível . Num tom de voz que não destoaria num Freddy Mercury, trás algo de novo ao álbum. Trás a rendição do ouvinte e a prova de toda uma cultura musical incontestável mergulhado num mar de referencias, que neste caso foi até Hope Foye buscar este tema dum musical com mais de meio século. Eterno.

«So Real» soa “so indie” que obriga-nos a verificar as tais influências que este transmitiu a bandas como Radiohead. Composta num simples rasgo de espontaneidade a meio da noite – duma só vez apenas! A secção rítmica, aliás o refrão! Estonteante! Os pequenos arranjos de produção estão 5 estrelas, “…I Love You..” soa de forma hipnótica, soa a trip, soa a um estado de espírito transcendente…
O suspiro.
Épico, um dos melhores momentos de sempre na carreira de Jeff Buckley. Um dos melhores temas de sempre. Uma das melhores interpretações, arriscada e conseguida.
«Hallelujah» foi tornada 8 maravilha do mundo na sua voz.
A sua beleza estonteante contrasta com o peso emotivo da voz de JB. A sua voz toca-nos, inspira-nos, faz-nos chorar, rir, dá-nos esperança, dá-nos um momento de introspecção. É transparente, é transcendente. É Imortal.
Leonard Cohen deu ao mundo a matéria, mas a obra-prima é de sua autoria. Quando deixamos de chamar cover para versão é por que algo de bom se proclama. Pois bem , eu proponho uma adição do sufixo –ão a versão para dar um ênfase ainda maior. Era no mínimo merecido.
Dando continuidade ao tom mais emotivo, «Love You Should’ve Come Over» é uma lição para músicos da nova geração, sem fugir demasiado á linha dum blues pop-rock consegue demonstrar certas influencias que as bandas que ouvia no passado tiveram no seu percurso musical. Tal como noutros temas, é de certa forma visível um foco na voz de Robert Plant, no entando as influências de distintos géneros musicais é mais do que visível em todo o álbum.
«Corpus Christi Carol» tira as dúvidas, este é mesmo um trovador. Quem no seu perfeito juízo arriscaria em composições do séc. XXVI num álbum de estreia, sem género definido?
A resposta é óbvia, e mais uma vez, é de abalo que nos rendemos! É mais um “olha o que eu sou capaz de fazer” do que uma benesse para Grace como álbum. Os Dotes vocais são incontestáveis, mas se há um momento a dispensar, este seria o único… a custo!
«Eternal Life» vive o anos 90, sedentos de garra e de alienação, de espírito rebelde, de grunge-o-mania . É o ponto alto em termos rítmicos donde mais uma vez se relembra a incrível banda que o acompanhava.
Se fosse personificado a cada música, Jeff Buckley metia Fernando Pessoa num bolso no que toca ao número de Heterónimos que se verificariam. Com idades distintas, estados de espírito, tudo. O experiente senhor do tema anterior dá lugar a este jovem cheio de garra!
A fechar, ao som de precursões e de pratos que relembram de certa forma o clássico «Planet Caravan» do grande Paranoid dos Black Sabbath, este «Dream Brother» é mais um reflexo da vida nada facilitada de Jeff Buckley e de toda a sua relação com Tim Buckley. O alarmismo deste tema toca mais uma vez á fuga de responsabilidades e á entrega á ruína. As palavras proferidas ao longo de Grace têm um tom tão biográfico que abala de certa forma o nosso mundo.
Um álbum sincero, onde Jeff, incrivelmente, consegue transmitir toda a qualidade como músico e como compositor. A letra é pesada, cheia de carga emotiva. Um reflexo de vivencia, um respirar de alívio, e um apelo de esperança. Os três num só.
Jeff Buckley viveu muito o pouco tempo que teve.


1- Mojo Pin
2- Grace
3- Last Goodbye
4- Lilac Wine
5- So Real
6- Hallelujah
7- Love, You Should've Come Over
8- Corpus Christi Carol
9- Eternal Life
10-Dream Brother

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