terça-feira, 2 de março de 2010

Red Hot Chili Peppers - Californication (1999)


Red Hot Chili Peppers são um fenómeno de originalidade e de sucesso incontestável. O seu rock puxa pelo funk , pelo punk e até mesmo por algum psicadelismo. O baixo ganha novos contornos nas mãos do super- Flea , a guitarra ganha um novo toque cristalino nas mãos de John Frusciante e tudo fica espectacular na voz do furacão Anthony Kiedis .
Californication é a prova de tudo isso.
É no final da década de noventa que os RHCP se cimentam como músicos reconhecidos mundialmente. Depois de temas de grande sucesso como «Give it Away» e «Suck My Kiss», e muito graças ao hino dos tempos modernos - «Under the Bridge»- todos eles temas do fantástico Blood Sugar Sex Magic , a banda «sai-se» com este fenómeno de vendas numa reunião de músicas todas elas pré-datadas como possíveis singles!
Entretanto tinham passado qualquer coisa como 8 anos. Frusciante tinha abandonado o barco em 92, sendo substituído por Dave Navarro, hoje um autentico jet-set da cultura MTV, conhecido na altura pelo trabalho nos Janes Addiction.
One Hot Minute intervalou esses aninhos mas o resultado não agradou aos fans e muito menos á banda. Pouco mais do que «Aeroplane» e «My Friends» se retira desse álbum.
O mítico guitarrista, Frusciante, entretanto caiu no vício da heroína que para além de ter estoirado a sua fortuna esteve muito perto de a pagar com a sua própria vida.

Californication representa a importância de uma segunda chance. Salvou-lhe a vida e salvou o futuro incerto da banda.
«Around the World» entra seco ao primeiro toque de baixo. O aviso é lançado e Flea entra de rompante numa entrada a 200 km/h. “All Around the world we can make time”, a voz de Kiedis demonstra-se melhor do que nunca, graças ao vocalista e ao incrível produtor Rick Rubin. Esta música é o primeiro passo duma futura «Can’t Stop» dando uma importância ao baixo (algo invulgar na maioria das bandas) criando um efeito alucinante que funciona às mil maravilhas nos concertos, levando o público ao delírio total. O Funk dançável dá lugar a um refrão harmonioso e orelhudo fechando com a banda em força bruta num rock’n’roll puro e duro. Já se tinha saudades de John Frusciante, e ao final do primeiro tema percebe-se bem o porquê.
Num segundo tema verifica-se um afastamento das linhas sonoras que definiam os Red Hot até á altura. «Parallel Universe» é um dos meus temas favoritos da banda, demarcado pela distorção da guitarra nos seus riffs esmagadores e seguido num pall-mute ensurdecedor na sua estrutura base. «Christ, i’m a sindewinder, I’m a California King!». O formato das músicas neste Californication está cada vez mais direccionado para o formato pop-rock de massas, mas sem baixar um cm na qualidade. Verso+refrão+verso+refrão+ solo+ refrao , elementar mas que funciona sempre, melhor que o 4-4-2.
O fade-out dá entrada a uma das introduções que faz desesperar os milhares de fans da banda. « Scar Tissue» é delicada, é límpida, é como água cristalina. Transpira o formato Fm e é perfeita para se ouvir na Marginal à beira-mar. «Scar Tissue that I wish you saw…»
A busca de duas notas algo distantes na linha da guitarra e uso visível do Slide-guitar criaram solos belíssimos e muito originais. Mudança mais do que visível nas técnicas adoptadas pelo guitarrista recém chegado pela segunda vez… O público teve uma recepção mais do que positiva e abraçou-o como um dos seus maiores sucessos de toda a carreira da banda.
Tal como o tema anterior, «Otherside» é um hino de sucesso que desabafa toda a vivência de drogas e de outros vícios ganhos ao longo da sua carreira.
Um tema que até teve desculpa para usar nas pistas de dança pelo mundo fora é no entanto um registo mais intimo que começa no acoustico mas que ganha vida ao compasso de Chad Smith na bateria. Sempre sem fugir demais ao registo, a sua técnica passa por deixar tudo bem simples e perceptível. O bater do pé é crescente até ao refrão mais do que decorado! A entrada dupla de Flea e Frusciante a entrarem no solo é feito numa simbiose total!
O back vocal do guitarrista é reconfortante e mais uma vez A. Kiedis entregasse de alma e coração.
«Get on Top» não deixa que os fans mais antigos saiam decepcionados. O Funk e o super-Flea sobressaem. “Right On…” O carimbo RHCP está posto e o selo de qualidade está mais do que tatuado. Um tema que vai buscar referencias a «Suck My Kiss». Enérgico e convidativo como só eles sabem fazer. O contraste de sons cria algo muito em conseguido.
Faith No More e Janes Addiction também foram buscar referências mais alternativas ao funk misturando no seu rock de origem, no entanto é de realçar que todos conseguiram resultados bastante distintos sendo cada um deles casos de sucesso num género ainda muito pouco explorado.
O tema título ganhou fama pelo vídeo que teve direito a “algumas” respeitosas passagens pelas televisões de todo o mundo. Aquele do vídeo-jogo diria eu…
A taça deste álbum vai de facto para John Frusciante. Mais do que viciante. Mais um hino dos trovadores da California e possivelmente dos maiores publicitários do Estado norte-americano!
«Californication» é um apelo à reflexão sobre o mundo ocidental, sobre o estado das coisas, sobre o mundo sombrio por detrás das luzes de Hollywood num mundo de referências que vai desde Kurt Cobain ao Stark Treck, visível na letra da música. Retrata um mundo de falsidade e de desespero. Arrisco-me a dizer que é a música mais bem sucedida da banda. Se não é, é certamente a que teve mais importância e peso na sua carreira e no sucesso dos RHCP.
Facilmente nos rendemos a este «Easily» que segue uma onda mais fluida rasgada numa guitarrada, “Lets get married today!” convida a banda a entrar num air-drum com Chad Smith.
Se «Scar Tissue» e «Otherside» revelam uma nova perspectiva duns Red Hot mais conscientes e maduros, «Porcelain» demonstra a entrega total. Num falsete memorável, Anthony Kiedis, eternamente lembrado com um furacão em palco, muda de registo numa melodia que faz lembrar «Something in the Way» do mítico Nevermind dos Nirvana. Se resistiu à “moda” Grunge, não resistiu a entregar-se como outrora Kurt Cobain , Eddie Vedder e até mesmo Billy Corgan dos Smashing Pumpkins o fizeram. Este ultimo era ponto de referencia perante a crítica que recebia com alguma surpresa este álbum.
«Emit Remmus» dá seguimento à linha musical de «Easily» com alguma concentração de esforços nos breaks de bateria e nos riffs de influências punk á la Iggy Pop.
«I Like Dirt» assim como «Right on Time» e «Purple Stain» demonstram as raízes da banda bem definidas, e revela vertentes mais psicadélicas, mais punks e até mesmo mais direccionadas para um hip-hop baseado num Groove Soul. Em todas as linhas de baixo montam a estrutura.
«Savior» faz lembrar o tom de Brandon Boyd dos Incubus e juntamente com «This Velvet Glove» abraça o momento mais “soft” do álbum, menos apontado para os singles de sucesso e mais focado no fluir de temas.
O punk de «Right Now» é introduzido pelo clássico dos The Clash, «London Calling», um dos riffs mais famosos vindos do Reino-Unido, no seu dvd Live in Slane Castle e pena temos nós de não ter sido gravado no álbum. Encaixe perfeito. O momento de maior loucura do álbum é contrastado pela confirmação dos dotes vocais do retornado e vencedor John Frusciante – Eternamente na memória dos portugueses pela interpretação de «How deep is your love?» dos Bee Gees em 2006…
«Road Trippin’» fecha o álbum à volta da fogueira no momento de despedida. Chad Smith dispensado da bateria pois o ritmo, como música de final de tarde que se prese á beira-mar é feita com a bela da guitarra acoustica.
A leitura que faço deste tema é mais de um lamento do passado e dum positivismo perante o futuro. As referências ao complicado relacionamento com as drogas são mais uma vez referidas, “Staying high and dry’s, more trouble than it’s worth», no entanto o convite é lançado mais uma vez, “lets go get lost”. Perder do passado que arrastou os Red Hot Chili Peppers para muito perto do abismo. Californication prova que conseguiram.


1- Around the World
2- Parallel Universe
3- Scar Tissue
4- Otherside
5- Get on Top
6- Californication
7- Easily
8- Porcelain
9- Emit Remmus
10-I Like Dirt
11-This Velvet Glove
12-Savior
13-Purple Stain
14-Right on Time
15-Road Trippin'

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